A água guarda histórias. Preserva vestígios de deslocamento, modos de vida, violência e conhecimento que atravessa gerações. Nessa perspectiva, a artista guadalupense Minia Biabiany apresenta Our Listenings no Museu Universitário de Arte Contemporânea (MUAC) da Cidade do México, uma exposição que explora os persistentes traços do colonialismo no Caribe e reivindica o oceano como um arquivo vivo, sensível e compartilhado.
A exposição, com curadoria de Virginia Roy Luzarraga, estará em cartaz na sala 3 do MUAC de 5 de setembro de 2026 a 14 de fevereiro de 2027. O projeto também representa um passo em direção à criação coletiva na prática de Biabiany, reunindo familiares, educadores, um cientista, um especialista em permacultura e uma menina de oito anos para investigar, sob diferentes perspectivas, a relação cotidiana e emocional com a água em Guadalupe.
O ponto de partida é um território profundamente marcado pela história colonial e pelas consequências da poluição causada pelo uso de clordecona em plantações de banana entre as décadas de 1970 e 1990. O pesticida deixou uma marca que continua a afetar o território e seus habitantes, tornando a água uma questão que transcende a dimensão ecológica para adquirir uma dimensão política, social e emocional.
Em Our Listenings , o mar não aparece como uma fronteira que separa territórios, mas como um espaço de troca e conexão. Experiências humanas e não humanas, memórias e deslocamentos convergem em suas águas, assim como diferentes formas de conhecimento. Biabiany propõe, portanto, uma perspectiva na qual corpos, paisagens e espécies fazem parte da mesma rede de relações.
A instalação audiovisual ocupa o centro da exposição e é acompanhada por seis esculturas de cachalotes feitas de madeira queimada. Esses grandes cetáceos estão entre as espécies presentes nas águas de Guadalupe, embora tenham pouca presença no imaginário coletivo local. Sua inclusão introduz uma dimensão animal que amplia a reflexão sobre memória e comunicação para além das limitações humanas.
A ecolocalização das baleias-cachalote é um dos pontos de referência fundamentais do projeto. Utilizando suas ondas sonoras e formas de comunicação, Biabiany desenvolve uma prática baseada na escuta profunda, dialogando também com os textos da escritora Alexis Pauline Gumbs. O som torna-se, assim, uma forma de abordar aquilo que permanece oculto, silenciado ou relegado às margens da história.
A escuta assume uma dimensão política. Diante dos silêncios herdados da escravidão e das estruturas de exploração ligadas ao colonialismo e ao capitalismo extrativista, a artista propõe dar atenção às vozes e aos signos que permanecem no território. O oceano surge como testemunha, preservando as marcas da dominação e, ao mesmo tempo, os saberes ancestrais, os rituais e as formas de relação com o meio ambiente que sobreviveram.
A poluição da água adquire, assim, uma dimensão histórica. As águas de Guadalupe falam não apenas da degradação ambiental, mas também das estruturas econômicas e coloniais que a tornaram possível. A paisagem se apresenta como um espaço onde as consequências do passado continuam a afetar o presente e onde a memória ecológica está inextricavelmente ligada à memória política.
Mas a exposição não se limita a apontar as feridas da terra. Sua dimensão coletiva também propõe a recuperação de outras formas de se relacionar com o meio ambiente. A escuta compartilhada é apresentada como uma prática de presença e como uma ferramenta para estabelecer conexões entre gerações, saberes e espécies.
Por meio de imagens, sons, esculturas e histórias ligadas ao oceano, Biabiany nos convida a enxergar o mar como um território sensível. Um espaço que recorda, transmite e preserva o que as narrativas oficiais nem sempre souberam ou quiseram ouvir.
Em Our Listenings , o oceano assume o protagonismo. Seus sons e silêncios nos permitem considerar a história de Guadalupe a partir de uma perspectiva onde natureza, memória e colonialismo se mostram profundamente interligados. A água deixa de ser apenas um elemento da paisagem, revelando as histórias que guarda e as relações que mantém entre aqueles que a habitam.