Há artistas que constroem sobre a permanência, que buscam fixar o mundo em formas imutáveis, desafiando a passagem do tempo. Alejandro Tobón constrói sobre o trânsito. Sua obra não se baseia no mundo como um objeto estático; ela desliza, é arranhada, fragmenta-se e recompõe-se em cada novo contexto. Portanto, sua matéria-prima não é apenas a madeira nobre dos altares barrocos, nem os skates que percorriam as ruas de seu bairro. Sua matéria-prima é o movimento: o movimento das coisas que mudam de direção, o movimento de histórias que renascem em formas imprevistas, o movimento de uma memória que não congela, mas sim segue em frente.
Rolar é a palavra que sustenta o universo desta nova obra. Não é um verbo menor, nem uma metáfora decorativa. É o gesto mais profundo de sua poética, aquilo que distingue seu trabalho de qualquer outro que tente falar do passado sem permitir que o passado se mova. O skate não é um objeto estático; é um artefato cultural concebido para estar em atrito com o asfalto, para desafiar a gravidade, para deixar sua marca à medida que se desgasta. Nas mãos de Tobón, o skate deixa de ser o brinquedo precário de uma contracultura dos anos oitenta e se torna uma vértebra, uma coluna, uma estrutura social. Mas jamais esquece sua origem; permanece aquilo que rola, aquilo que é atravessado, aquilo que se entrega ao movimento como condição de existência.
Tobón nasceu em um bairro da região metropolitana de Medellín, onde o que vinha de fora não era copiado, mas apropriado. Punk, rock e skate chegavam como imagens borradas do norte, e em suas mãos se transformavam em algo mais, uma versão caseira, um híbrido local com linguagem própria. Essa foi sua primeira escola, sua primeira lição: a identidade não é pura herança, mas o atrito constante entre o que chega e o que já existe. O que vem de fora não é copiado, é territorializado. É misturado, transformado, torna-se algo novo que só faz sentido aqui. Essa lição, aprendida nas ruas de sua infância, ele nunca deixou de esculpir em madeira.
Por isso, seus materiais nunca são neutros, nunca inocentes. O mogno e o cedro vêm de altares desmantelados, de confessionários que ouviram pecados há muito esquecidos, de escrivaninhas onde foram assinados acordos e traições. Essa madeira era poder, luxo, ostentação. Era o centro de um mundo que se acreditava eterno. E agora é o que restou. Tobón a resgata não para restaurar sua glória — ele não busca devolver seu esplendor perdido —, mas para mostrar sua fragilidade, para que a passagem do tempo ainda possa ser lida em seus veios, o desgaste daquilo que um dia foi o centro e hoje é apenas uma sombra. A madeira nobre torna-se, assim, uma ruína que exuma ativamente aquilo que o poder procurou apagar.
Ao lado daquela madeira outrora sagrada, Tobón coloca os skates. Objetos humildes que, nos anos oitenta, eram imitações improvisadas do que aparecia em revistas estrangeiras. As crianças de sua geração os fabricavam com madeira compensada e rodas emprestadas, sem saber que estavam inventando uma maneira de habitar as ruas, de traçar suas próprias linhas no chão, de rolar. O skate não era um brinquedo. Era um veículo. Uma extensão do corpo que lhes permitia deslizar pelo asfalto, atravessar a cidade com uma velocidade diferente, com uma perspectiva diferente. Era, mesmo naquela época, um ato de liberdade.
Em movimento perpétuo, desafiando a imobilidade da ordem estabelecida. O skate rola, e a memória também, quando se recusa a ser petrificada em museus e monumentos oficiais. A história rola quando alguém ousa contá-la a partir das margens. Agora, Tobón desmonta skates, um após o outro, montando-os em uma rede. Cada segmento é um skate que um dia percorreu a cidade, carregando as marcas do atrito com o concreto, os arranhões do skatista, os desenhos apagados pelo desgaste. Esse tecido é frágil — porque tudo feito de fragmentos pode desmoronar — mas também é forte. Porque nos sustenta e nos permite ficar de pé. É a pele de uma sociedade que aprendeu a se reconstruir a partir dos pedaços, repetidamente, após cada declínio.
E então há a grande espinha dorsal, uma estrutura delicada construída sobre a tensão entre o que lembramos e o que preferimos esquecer. Para construir esta coluna, Alejandro Tobón não se apegou a uma única tradição. Ele sabe que a memória também é feita com as ferramentas do presente, assim como a madeira nobre dos altares encontra os skates que outrora percorriam a cidade. Agora, ela também encontra outras formas de moldar o mundo, com técnicas que parecem distantes, mas que em suas mãos se tornam próximas, tangíveis, corporificadas. Ele não substitui o antigo pelo novo; ele os funde. Porque seu ofício não é nostalgia, mas reinvenção, apropriando-se do que a técnica contemporânea oferece e tornando-a a própria essência da investigação que sempre o guiou. A coluna não perde sua origem; ela a expande. Ela permanece uma espinha dorsal, permanece a fragilidade que sustenta, permanece o lugar onde o sagrado, o político e o desafiador estão inscritos. Só que agora, ela também é a prova de que a memória não está ancorada em uma única materialidade, mas se adapta, se transforma e continua rolando.
Essa coluna é vulnerável e poderosa ao mesmo tempo, como a memória, como a cidade, como a identidade de um país que foi fragmentado inúmeras vezes, mas que ainda resiste. Fragilidade e força coexistem em cada fragmento. Porque o que é feito de fragmentos pode desmoronar, mas também pode sustentar um mundo. Essa é a cidade, uma acumulação de camadas que se sobrepõem, se fragmentam e se recompõem. E esse é este país, um território que aprendeu a se reconstruir a partir dos fragmentos, não porque os fragmentos sejam fortes, mas porque a vontade de resistir é mais poderosa do que a fragilidade dos materiais.
Tobón olha para trás e reconhece sua linhagem. A Escola de Quito, aquele barroco latino-americano nascido da distância, da necessidade de recriar, com o pouco que se tinha à disposição, o que chegava da Europa. Ali, ele encontra a mesma urgência, a de quem faz beleza a partir de restos, quem transforma a precariedade em linguagem, quem entende que criar não é copiar, mas reinventar. As oficinas coloniais e os bairros operários de Medellín se encontram naquela linha invisível que une aqueles que, a partir da carência, inventam sua própria forma. O skate artesanal dos anos 80 e o retábulo de Quito do século XVII compartilham a mesma urgência: criar beleza com o que se tem, ressignificar o que é estrangeiro, apropriar-se do que é emprestado.

O que é um monumento do futuro? Não é pedra. Não é bronze. Não é a figura de um herói imóvel numa praça vazia, contemplando um horizonte que já não nos chama. Um monumento do futuro é uma tábua rolante. É uma coluna que se mantém de pé apesar das suas fraturas. É um fragmento de madeira que outrora foi um altar e agora é outra coisa. É a memória que não se guarda em arquivos, mas circula pelas ruas, permitindo-se ser riscada, reinterpretada e transmitida às novas gerações. É, acima de tudo, a certeza de que o que está vivo se transforma. E que essa transformação — esse eterno retorno do mesmo, mas nunca do mesmo — é a nossa única forma de permanecer. Tobón não cria monumentos no sentido clássico. Não procura eternizar o poder nem fixar uma narrativa. Os seus Monumentos do Futuro são algo completamente diferente: esses dispositivos transitórios, artefactos que rolam, estruturas que se sustentam na tensão entre o que fomos e o que queremos ser. São um convite a refletir sobre a ideia de que o futuro não se constrói a partir de uma folha em branco, mas sim da reinterpretação daquilo que já teve outra vida, com suas nuances. Essas obras, quando reimaginadas, falam da nossa capacidade de nos reinventarmos, de transformar a precariedade em potencial, de fazer uma linguagem a partir dos vestígios.
Alejandro Tobón parte dessa convicção e, em vez de oferecer certezas fáceis, apresenta questões esculpidas em madeira, vértebras que nos lembram que somos feitos de fragmentos, que nossa força reside não em sermos um bloco indivisível, mas na articulação precisa daquilo que antes era separado. Cada vértebra é uma história que percorreu a cidade antes de chegar aqui; cada uma carrega as marcas de sua jornada, os arranhões de quem a usou, o desgaste de quem a habitou. E quando reunidas às outras, elas não formam uma estrutura rígida que imobiliza, mas uma coluna que se curva sem quebrar, que se flexiona a cada movimento, que nos permite virar a cabeça para olhar para trás sem parar de seguir em frente. Porque uma vértebra não é feita para a imobilidade, mas sim para o movimento. Para girar, para torcer, para a resistência adaptativa. Assim como um skate só tem significado quando rola, uma vértebra só tem significado quando nos permite permanecer eretos enquanto nos movemos.
Alejandro nos oferece uma obra para reflexão, para o desgaste que as memórias deixam. Ela nos convida a continuar em movimento, mesmo quando o caminho parece incerto. Porque seguir em frente é resistir. Seguir em frente não é ficar parado diante do esquecimento. Seguir em frente é, em última análise, lembrar que a memória não é um fardo que carregamos, mas um movimento que nos impulsiona — e que para nos movermos, primeiro precisamos estar articulados, precisamos de vértebras que nos sustentem sem nos aprisionar.
Filmar, então, é um ato de liberdade. É a liberdade de rejeitar a narrativa única. A liberdade de transitar pelas entrelinhas. A liberdade de se deixar desgastar pelo atrito com a realidade. A liberdade de se recusar a ser uma pedra em um monumento que ninguém visita, de se tornar um movimento que desafia, que perturba, que transforma.
Seus Monumentos do Futuro não são feitos de pedra. São feitos daquilo que rola, que se arranha, que quebra e se recompõe. E talvez seja por isso — precisamente por causa de sua fragilidade — que são mais duráveis do que qualquer estátua. Porque aquilo que está vivo, aquilo que se move, aquilo que se transforma com o tempo, aquilo que é entregue nas mãos da cidade para habitar, isso sim merece ser chamado de monumento. Não um monumento ao passado imutável, mas um monumento ao futuro que ainda podemos construir enquanto continuamos a avançar.