A controvérsia em torno da remoção de 30 peças da exposição permanente do Museu Nacional da Colômbia desencadeou uma crise institucional que se estende muito além da esfera museológica. A decisão do Ministério da Cultura, defendida pelo governo do presidente Abelardo de la Espriella como parte de sua ofensiva contra o que chama de "wokismo ", provocou protestos da população, rejeição por parte de instituições artísticas e críticas de todo o espectro político. A controvérsia também chegou aos tribunais: um juiz em Bogotá determinou, em caráter provisório, que nenhuma outra remoção seja realizada e que a preservação dos objetos afetados seja garantida.
A decisão do juiz César Osorio Ortiz ocorreu após ele aceitar uma ação judicial movida por três cidadãos que acreditam ter seus direitos relacionados à memória histórica, à verdade, à reparação simbólica e à liberdade de expressão artística violados. A medida obriga o Ministério da Cultura a preservar as obras removidas e proíbe sua destruição, retirada do museu, desativação, devolução a terceiros ou alteração. Estipula ainda que outras obras não podem ser removidas ou alteradas das exposições com base em seu conteúdo, sem justificativa administrativa para tais decisões.
Os autores da ação judicial são Gabriel Becerra, representante na Câmara pelo Pacto Histórico e secretário-geral da União Patriótica; Jorge Virviescas, membro do coletivo LGBTIQ+ León Zuleta; e Kevyn Muñoz Torres, membro da organização trans Revolución Rosa. O juiz concedeu ao Ministério um dia útil para apresentar um relatório detalhado sobre os artefatos removidos, sua localização atual, seu estado de conservação e as autoridades responsáveis por cada decisão.
Objetos que contam uma história controversa
Entre os itens removidos estão objetos e fotografias relacionados à diversidade sexual e aos movimentos feministas, bem como materiais ligados a líderes de esquerda assassinados em 1990. Entre eles está Bernardo Jaramillo, candidato à presidência pela União Patriótica, cuja trajetória faz parte de um dos episódios mais dolorosos da história política colombiana.
A intervenção também afetou objetos que documentam processos fundamentais da história recente do país. É o caso de um exemplar da Sétima Votação, iniciativa promovida pelo movimento estudantil em 1989 que contribuiu para o processo constituinte que culminou na Constituição de 1991. A caneta usada pelo ex-FARC e ex-presidente Juan Manuel Santos para assinar o acordo de paz de 2016 também foi removida. A lista de itens inclui ainda a camisa que o ciclista Lucho Herrera usou quando venceu a classificação de Rei da Montanha no Tour de France.
A diversidade desses objetos intensificou as críticas à intervenção. Além de sua natureza material, as peças documentam lutas por direitos civis, processos de participação democrática, conflitos políticos, acordos de paz e eventos esportivos que fazem parte do imaginário coletivo colombiano. Sua remoção, portanto, levanta uma questão central sobre o papel dos museus nacionais: quem decide quais episódios devem ser representados e por quais critérios a narrativa de uma sociedade é construída?

Discurso político e a resposta do mundo cultural
A controvérsia foi exacerbada pelo contexto político em que a decisão foi tomada. No mesmo dia em que as obras foram removidas, o presidente De la Espriella fez um discurso no Ministério da Cultura, no qual anunciou uma repressão à ideologia de gênero e à linguagem inclusiva. Em seu discurso, ele questionou perspectivas que, em sua opinião, negam as diferenças biológicas entre homens e mulheres, justificam o terrorismo ou interpretam a história unicamente em termos da relação entre opressores e oprimidos.
O Ministro da Cultura, Holguín, defendeu a necessidade de reavaliar a abordagem curatorial do Museu Nacional, mas não ofereceu uma explicação detalhada dos critérios utilizados para selecionar as peças nem das razões para sua remoção repentina. A intervenção deixou espaços vazios nas galerias e alimentou suspeitas de que a reorganização seja motivada por ideologia.
Após dois dias de protestos, a ministra manteve sua posição e publicou uma declaração em suas redes sociais acusando os organizadores das manifestações de terem transformado a cultura em uma ferramenta para "desconstrução histórica, glorificação do crime e revitimização das vítimas". Suas declarações contribuíram para prolongar o confronto entre o governo e os setores que exigem explicações públicas sobre a intervenção.
Galerias colombianas reivindicam autonomia cultural
A rejeição não vem apenas de organizações políticas ou grupos sociais. O debate também mobilizou instituições e profissionais do setor artístico, preocupados com as consequências que tal decisão poderia ter sobre a autonomia dos museus e a liberdade de interpretação histórica.
A Associação Colombiana de Galerias de Arte (AGAC) destacou o papel que as galerias desempenham no desenvolvimento profissional de artistas, galeristas, curadores, gestores culturais e outros agentes do setor. A organização defende esses espaços não apenas como locais para exibir, vender e circular arte, mas também como pontos de encontro que promovem o acesso à cultura por meio de exposições, palestras, cursos, seminários e oficinas, muitos dos quais gratuitos.
Em sua declaração institucional, a associação destaca a contribuição histórica das galerias para a autonomia do cenário artístico colombiano, a consolidação da arte moderna e contemporânea, a internacionalização de seus artistas e o desenvolvimento de público e colecionadores. Ressalta também o trabalho das galerias em áreas como consultoria de coleções, catalogação, conservação e comercialização de obras de arte. Desde sua fundação, a AGAC tem defendido a revitalização do mercado de arte nacional e internacional e a promoção das melhores práticas em colecionismo, partindo da convicção de que a cultura contribui para o bem-estar social e econômico do país.
Nesse contexto, a controvérsia em torno do Museu Nacional toca em uma questão que vai além da gestão de uma coleção específica: a capacidade das instituições culturais de exercerem seu trabalho com critérios profissionais, preservarem a pluralidade de narrativas históricas e manterem sua independência diante das mudanças na orientação política.
Uma rejeição que atravessa todo o espectro político.
As críticas à remoção dos artefatos transcenderam as fronteiras ideológicas tradicionais. Representantes de setores liberais e de direita expressaram publicamente sua discordância com a intervenção, questionando o direito do governo de determinar quais eventos históricos devem permanecer visíveis em um museu.
Federico Hoyos, ex-deputado do Centro Democrático, manifestou-se contra a remoção de artefatos que ilustram parte da história colombiana. Enquanto isso, Juan Manuel Galán, diretor do movimento Novo Liberalismo e filho do candidato presidencial Luis Carlos Galán, assassinado em 1989, alertou para os riscos de transformar galerias de museus em instrumentos de propaganda política. Sua crítica se concentra na possibilidade de um governo adaptar o passado aos seus próprios interesses, em vez de promover uma compreensão pluralista dos acontecimentos.
María Paz Gaviria, curadora de arte e ex-candidata ao Senado pelo Partido Liberal, também questionou a decisão, indagando como se pode explicar a conquista da cidadania sem mostrar aqueles que tiveram de lutar por ela. Sua reflexão resume uma das principais objeções à remoção: eliminar os vestígios materiais de certos movimentos pode dificultar a compreensão dos processos sociais que transformaram o país.
A intervenção também provocou indignação em diversos museus de arte moderna colombianos, que exigiram respeito à autonomia institucional e uma revisão pública das decisões tomadas. Os críticos concordam que a seleção e a apresentação das coleções dos museus devem basear-se em critérios transparentes e profissionais, e não no desejo de impor uma interpretação única da história.