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Sliman Mansour, gigante da arte da resistência palestina, morre.

Sliman Mansour, gigante da arte da resistência palestina, morre.
bonart beirut - 26/08/26

O artista Sliman Mansour, figura fundamental da arte palestina contemporânea, faleceu aos 79 anos após uma longa doença, conforme anunciado por sua família. Nascido em 1947 em Birzeit, perto de Ramallah, Mansour desenvolveu, ao longo de mais de cinco décadas, uma obra profundamente ligada à história, identidade e memória da Palestina.

Mansour pertencia à geração de artistas, escritores e poetas palestinos que, durante a década de 1970, buscaram reconstruir uma identidade cultural ameaçada por meio de imagens e símbolos enraizados na terra. Em suas pinturas, a terra adquiriu uma dimensão política e emocional: camponeses, casas de pedra, oliveiras, bordados tradicionais e cenas do cotidiano tornaram-se elementos de uma linguagem visual capaz de falar de pertencimento, deslocamento e resistência.

Tendo recebido sua formação artística em Beirute e posteriormente em Washington, Mansour começou a expor regularmente tanto no mundo árabe quanto internacionalmente. Seu trabalho passou a integrar museus e coleções particulares em diversos países, e ele recebeu inúmeros prêmios por sua contribuição à cultura palestina e árabe. Em 1970, estudou na Academia de Artes e Design Bezalel, em Jerusalém, período que coincidiu com o início de uma carreira artística marcada pela busca de sua própria expressão singular.

Seu universo visual se inspirava em diversas tradições. As civilizações antigas da região — incluindo as culturas cananeia, egípcia e assíria — coexistiam em sua obra com referências à arte islâmica e árabe, especialmente à caligrafia e aos motivos geométricos. Essas influências eram complementadas por elementos da cultura popular palestina e pelas experiências cotidianas das comunidades rurais ao seu redor.

Nessa intersecção entre tradição e vida contemporânea, a paisagem deixou de ser mero pano de fundo e tornou-se protagonista. A oliveira, a terra cultivada, a habitação tradicional, o agricultor e o bordado do thobe adquiriram um poder simbólico que permitiu representar uma cultura ameaçada pelo deslocamento e pela ocupação.

Durante a Primeira Intifada, Mansour participou, juntamente com outros artistas, da criação do grupo Nova Visão. O coletivo decidiu abandonar os materiais produzidos em Israel e, em vez disso, voltou-se para elementos naturais ligados à terra, como argila, palha, madeira, couro, henna e corantes naturais. A mudança não foi meramente técnica. Envolveu também uma reflexão sobre a dependência cultural e econômica e sobre a possibilidade de construir uma prática artística diretamente conectada à terra.

Mansour considerava essa experiência como uma ponte entre a arte palestina que surgiu após a Nakba e as gerações subsequentes. Seu trabalho, portanto, contribuiu para consolidar uma tradição artística na qual a criação também se tornou uma forma de preservar uma memória coletiva.

Em 1994, Mansour foi também um dos fundadores do Centro de Arte Al-Wasiti, em Jerusalém Oriental, concebido como um espaço dedicado à preservação da arte palestina e ao fomento de encontros entre artistas residentes na Palestina e aqueles exilados. A instituição refletia outra das principais preocupações de sua carreira: unir, por meio da arte, territórios e comunidades separados pela história.

Seu trabalho abordava repetidamente temas como terra, exílio e ocupação, mas evitava ser reduzido a uma mera representação documental do conflito. Suas figuras e paisagens construíam uma iconografia reconhecível da Palestina, onde o cotidiano podia adquirir uma dimensão universal. Em suas imagens, a resistência nem sempre se manifestava como confronto direto; ela também podia ser expressa pela presença constante de uma casa, uma árvore, um vestido bordado ou o olhar de uma criança.

Em entrevista à Al Jazeera em 2021, Mansour explicou claramente o papel que atribuía à arte em um contexto de negação da identidade palestina: "Acho que a arte, em nossa situação, quando não se tem uma pátria, quando não se tem um país, algo político, e quando as pessoas negam nossa existência, é uma forma de dizer que estamos aqui."

Essa declaração resume grande parte de seu legado. Para Mansour, pintar a Palestina significava tornar uma existência visível, preservar uma memória e resgatar a conexão com a terra. Sua obra transformou símbolos aparentemente simples em uma poderosa gramática visual de pertencimento.

A carreira de Sliman Mansour está, portanto, intimamente ligada à história da arte palestina contemporânea. Seu legado reside não apenas nas obras que deixou, mas também em sua contribuição para a construção de uma linguagem por meio da qual várias gerações puderam representar sua identidade, sua memória e sua relação com um território marcado por conflitos.

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