A obra de Marie-France Veyrat caracteriza-se, desde o início, por uma atemporalidade constante e um claro desejo de universalidade. Suas figuras não pertencem a nenhum território específico, nem se inscrevem em uma cronologia estável; surgem como presenças transversais, quase extradimensionais, capazes de articular uma linguagem comum entre realidades possíveis. Em seu universo visual, a arte não apenas habita o tempo: ela o precede e, de certa forma, o ativa.
Essa perspectiva ganha forma na exposição que pode ser visitada até 4 de abril como parte do Ciclo de Arte Contemporânea na Sala Fortuny, com curadoria de Aureli Ruiz. Nela, os têxteis emergem como o núcleo conceitual de uma investigação que conecta origem e futuro em um único gesto. O tecido não é entendido como um suporte ou uma superfície ornamental, mas como uma estrutura de pensamento. Tecelagem, na prática de Veyrat, é equivalente a codificação; entrelaçar fios é construir sistemas. O tear deixa de ser uma ferramenta ancestral para se tornar uma tecnologia do conhecimento.
A artista propõe, assim, uma leitura dos têxteis como um dispositivo primordial que antecipa os princípios da computação contemporânea. Trama e urdidura dialogam com circuito e tela; o padrão torna-se um protoalgoritmo. Essa correspondência questiona a narrativa linear do progresso técnico e, em vez disso, propõe uma temporalidade dobrada, onde origem e futuro coexistem na mesma operação material.
As peças não são apresentadas como relíquias, mas como vestígios ativos orientados para o amanhã. São artefatos que guardam uma memória paradoxal: não do que já aconteceu, mas do que ainda está por vir. Essa ideia se conecta com a noção de Vorerinnerung — o “pré-registro” —, a inquietante intuição de que o futuro pode deixar sua marca no presente.
Em consonância com o pensamento de Martin Heidegger, o tempo não é concebido como uma linha que avança em direção a um horizonte distante, mas como uma força estruturante que emerge da futuridade. A obra, portanto, ativa uma experiência temporal expandida na qual memória e antecipação se confundem, e o têxtil — entendido como um sistema — torna-se uma metáfora e um mecanismo para repensar a arte digital.
A instalação também faz parte da pesquisa escultórica de Veyrat sobre a forma totêmica e o volume das raízes brutalistas. O totem não aparece como um símbolo folclórico, mas como uma estrutura primária: um corpo vertical que concentra matéria, energia e memória em um eixo de tensão. O espaço expositivo não é organizado cronologicamente, mas ontologicamente. As obras compartilham a mesma dimensão atemporal onde o arcaico, o tecnológico e o especulativo coexistem sem hierarquia.
O resultado é uma experiência corporal e imersiva, quase ritualística, que nos convida a repensar a relação entre tradição e tecnologia, entre gesto manual e inteligência artificial, entre passado ancestral e imaginação digital. Mais do que um olhar nostálgico para a origem, a proposta apresenta a origem como um território latente: um espaço a partir do qual ainda é possível imaginar o futuro.