A nova exposição do Museu Nacional d'Art de Catalunya (MNAC), Recuperado del enemigo . Els depots francistes al MNAC, propõe um olhar crítico sobre a trajetória da própria instituição e a história — complexa e muitas vezes incômoda — de suas coleções. A exposição concentra-se nas obras que entraram no museu por meio do Servicio de Defensa del Patrimonio Nacional (SDPAN), a organização franquista criada após a vitória na Guerra Civil para gerir o patrimônio artístico sob o novo regime.
Com curadoria de Gemma Domènech i Casadevall e Eduard Caballé i Colom, a exposição reúne 135 peças — muitas delas sem autoria reconhecida — que foram depositadas no Palau Nacional após a conclusão da gestão oficial do pós-guerra. Na maioria dos casos, esse processo implicou a restituição das obras aos seus legítimos proprietários; em outros, porém, sua trajetória foi interrompida nos depósitos do museu, onde permanecem até hoje.

Anônimo, Las chicas de Claudia, C. 1929-1938.
A exposição faz parte de uma linha de trabalho iniciada em 2014 com a criação de salas permanentes dedicadas à Guerra Civil, projeto que moldou a política do museu em relação a exposições temporárias, programas públicos e aquisições referentes a esse período. Nesse sentido, "Recuperado do Inimigo" dialoga diretamente com a exposição "¡El museo en peligro!", focada nas tarefas de salvaguarda do patrimônio artístico após o início do conflito, sob a direção de Joaquim Folch i Torres.
É importante lembrar que o Museu d'Art de Catalunya, antecessor do atual MNAC e inaugurado em 1929, assumiu durante a guerra a missão de proteger suas coleções do risco de bombardeios e saques. As obras foram transferidas para diversos locais do território, como a igreja de Sant Esteve em Olot ou depósitos estabelecidos em Bescanó, Darnius e Agullana, com o objetivo de preservá-las da destruição.

Placa SPDAN: 'Entrada estritamente proibida'.
Com a derrota republicana, os depósitos organizados pela Generalitat passaram para as mãos dos vencedores. O SDPAN assumiu a sua gestão e voltou a utilizar o museu como centro de recepção, custódia e administração das obras. Esta dupla função — de instituição museológica e, simultaneamente, de depositário de arte, tanto durante como após o conflito — explica por que razão o MNAC conserva hoje uma coleção diretamente ligada a essas operações de salvaguarda e apropriação.
As 135 peças apresentadas formam um conjunto heterogêneo que reflete a diversidade de origens e circunstâncias. Nas etiquetas das molduras, a inscrição "Recuperado del enemigo" torna-se um testemunho eloquente: mais do que uma simples anotação administrativa, simboliza a imposição militar de uma nova ordem política que também se projetou na esfera artística e patrimonial.
O diretor do museu, Pepe Serra, definiu a exposição como "um exercício de memória, transparência e reparação". Nesse sentido, a exposição não apenas revisita o passado institucional, mas também abre um espaço para reflexão sobre as responsabilidades dos museus na construção — e revisão — de narrativas históricas.