Consol Ribas e Lluís Llamas, diretores do Festival de Arte Independente Pepe Sales, abrem as portas para a 19ª edição do evento, este ano dedicada a Suzuki Shizuko. De 24 de janeiro a 4 de fevereiro, o festival se transforma mais uma vez em um espaço de interseção entre disciplinas, pensamento e criação contemporânea. A Bonart conversou com eles para saber em primeira mão sobre os principais elementos e a programação do Festival Pepe Sales 2025.
Quem foi Suzuki Shizuko e por que ela foi silenciada?
Suzuki Shizuko foi uma poetisa japonesa do pós-guerra que, apesar de ter sido publicada e lida com sucesso na época, acabou apagada da memória coletiva. Após a rendição incondicional do Japão em 1945 e sob a ocupação americana, Shizuko escreveu a partir de um lugar profundamente desconfortável: ela era uma mulher liberal que usava o haicai tanto como um refúgio íntimo quanto como uma ferramenta de revolta.
Ela amava um soldado afro-americano — um fato profundamente estigmatizado — e escreveu sem concessões sobre o corpo, o desejo, a precariedade e a sobrevivência em um Japão derrotado e ocupado. Sua conexão com o universo das garotas panpan e sua liberdade radical permanecem incômodas até hoje. Essas mesmas razões levaram ao silenciamento de sua voz na época.

Qual é o orçamento para o Festival de Vendas Pepe 2026?
O orçamento do Festival Pepe Sales 2026 combina recursos próprios da Associação La Penyora Cultura com apoio institucional e cessão de espaços. Como em todas as edições, trabalhamos com um modelo de produção austero, porém muito rico em conteúdo, viabilizado pelo envolvimento altruísta de artistas, criadores e equipes técnicas. O principal valor do orçamento não reside tanto no valor monetário, mas sim na capacidade de gerar uma programação intensa, singular e inédita com recursos limitados.
Como surgiu a ideia de dedicar esta edição a Suzuki Shizuko?
A ideia nasceu da descoberta de um haicai de Suzuki Shizuko que nos impactou profundamente por sua liberdade e força. Aquela voz feminina, marginal e poderosa conectou-se plenamente com o espírito do Festival Pepe Sales. A partir daí, iniciou-se uma busca que culminou na recuperação cultural de uma autora praticamente desconhecida em nosso contexto.
Quais aspectos do seu trabalho e da sua personalidade mais se conectam com o espírito do festival?
Suzuki Shizuko escreve a partir das margens, rompendo as fronteiras do haicai tradicional — tanto em termos de métrica quanto de conteúdo — e transformando a poesia em um ato de resistência vital. Sua maneira de compreender a arte e a vida, como uma afirmação radical da liberdade, está muito próxima do espírito do Festival Pepe Sales.

Que mensagem ou reflexão você deseja transmitir ao público com esta edição?
Queremos convidar o público a ouvir uma voz necessária. A poesia de Suzuki Shizuko fala de liberdade, dignidade e resistência, e suscita reflexões muito atuais sobre a condição da mulher, a violência, o desejo e a capacidade da arte de sobreviver à adversidade.
Haverá colaborações internacionais ou intercâmbios culturais com o Japão?
Sim. Esta edição reforça o intercâmbio cultural com o Japão através de diversas colaborações culturais e editoriais. Merece destaque a participação da escola japonesa Som Japó , cujos alunos traduziram os haicais para o catalão, bem como o trabalho da Editorial Lapislàtzuli, responsável pela publicação do livro, e a colaboração da NIPPÒNIA Idiomes.
Qual será o papel da poesia no Festival Pepe Sales de 2026?
Nesta edição, a poesia é a espinha dorsal do festival. Todas as atividades são baseadas nos haicais, na vida e na obra de Suzuki Shizuko. O festival é inteiramente dedicado a ela e também pretende ser uma homenagem a todas as mulheres que sofreram — ou ainda sofrem — escravidão sexual em contextos de guerra.
Qual é a filosofia do Festival de Vendas Pepe?
Nosso lema é cultura, critério e liberdade. O festival busca gerar pensamento crítico e critérios próprios. Tudo o que é alcançado é possível graças ao envolvimento de artistas, técnicos e colaboradores, que demonstram que a cultura pode ser construída a partir da troca, do engajamento e do amor, para além do dinheiro.

Após dezenove edições, qual o papel do Festival Pepe Sales no atual panorama cultural?
É um espaço para descobertas. Quando o festival começa, muitas vezes ninguém conhece a autora; quando termina, o público já a adora. Essa capacidade de dar voz a autores esquecidos é uma das características mais marcantes do festival.
O que você gostaria que o público levasse desta edição?
A sensação de ter descoberto uma autora essencial e de ter criado um vínculo emocional com ela. E também uma reflexão sobre todas as mulheres silenciadas e exploradas ao longo da história. Se isso acontecer, a missão estará cumprida.