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Espelho do mundo: arqueologia da memória na obra de Patricia Gómez e María Jesús González

Foto: «De lo abyecto. Muro sobre lienzo”. Intervención en el pabellón 6. Hospital Psiquiátrico de Bétera. Patricia Gómez y Mª Jesús González.
Espelho do mundo: arqueologia da memória na obra de Patricia Gómez e María Jesús González
bonart cáceres - 13/06/26

O Museu Helga de Alvear apresenta a exposição temporária "Espelho do Mundo ", um projeto das artistas Patricia Gómez e María Jesús González que convida à reflexão sobre memória, identidade e as marcas que o tempo deixa nos espaços arquitetônicos. A exposição estará em cartaz em Cáceres de 12 de junho a 11 de outubro, antes de iniciar uma segunda fase prevista para 2027 no Tenerife Arts Space (TEA).

A exposição reúne 19 obras de origens diversas, incluindo seis peças criadas especificamente para o museu de Cáceres. No geral, a mostra apresenta uma jornada que combina vídeo, fotografia, instalação, documentos e murais, num diálogo constante entre pesquisa artística e memória histórica.

Arquiteturas da ausência: o “desarraigamento mural” como arquivo do tempo

O foco central do projeto é a técnica de "remoção de murais", um procedimento originário da restauração que os artistas adaptaram ao âmbito da criação contemporânea. Utilizando esse método, Gómez e González extraem camadas de tinta, escrita e desgaste de superfícies abandonadas, transformando os vestígios materiais em registros sensíveis do passado.

O trabalho deles se concentra em espaços de confinamento, isolamento e controle social — como prisões, hospitais psiquiátricos ou centros de detenção — onde o tempo deixou marcas profundas. Longe de ser mera documentação, os artistas ativam esses lugares por meio de processos de transferência física, transformando o que resta em imagens que oscilam entre o documental e o poético.

A antiga prisão de Cáceres e o Hospital de Bétera: dois centros de pesquisa

Um dos principais focos da exposição é a intervenção na antiga Prisão de Cáceres, utilizada durante o regime franquista como espaço de repressão a presos políticos. Utilizando as paredes da prisão, os artistas criaram um mural monumental de 23 metros na Casa Grande, feito a partir da remoção de seções do mural original sobre tela preta, reproduzindo fragmentos de uma galeria do Módulo I do complexo prisional.

Em paralelo, a exposição reúne pela primeira vez de forma abrangente o trabalho desenvolvido desde 2017 em torno do antigo Hospital Psiquiátrico Provincial de Bétera (Valência). A partir desse contexto, os artistas criaram novas obras, como o vídeo *Que se enteren todos* (Que todos saibam) e a instalação *Libros de Pabellón * (Livros do Pavilhão), onde recuperam diários e livros de visitas para transformá-los em estruturas visuais que reinterpretam o cotidiano.

Uma arqueologia do invisível

De acordo com a curadora María Jesús Ávila, as obras não apenas documentam os edifícios, mas também os ativam como arquivos vivos. Cada fragmento extraído funciona como uma camada sobreposta de tempo, onde escrita, pintura e desgaste se entrelaçam.

Essa abordagem transforma o aparentemente insignificante — manchas, assinaturas, vestígios materiais — em ferramentas para a interpretação histórica. Assim, o trabalho de Gómez e González constrói uma ponte entre o individual e o coletivo, entre a experiência íntima dos espaços e sua dimensão social e política.

Um projeto em diálogo com a instituição

Sandra Guimarães, diretora do Museu Helga de Alvear, destaca a coerência desta proposta com o foco de pesquisa do centro, que se concentra em práticas artísticas que cruzam as fronteiras entre o local e o global. A colaboração com a TEA reforça ainda o caráter itinerante do projeto, que continuará sua turnê em 2027.

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