Existem materiais que parecem reter a memória do que já foram. Na obra de Solange Pessoa (Ferros, Brasil, 1961), cabelo, cera, couro, sangue e minerais deixam de ser meros elementos físicos, adquirindo uma dimensão que oscila entre o corpóreo, o ritualístico e o transcendente. Seu trabalho mergulha em um território onde a natureza não é uma paisagem a ser contemplada de fora, mas uma força viva que permeia os corpos, transforma materiais e conecta diferentes temporalidades. Com *De Dia ou de Noite* , o Centro Botín de Santander apresenta, pela primeira vez na Espanha, uma exposição dedicada a essa artista, cuja prática multidisciplinar ocupa um lugar singular no cenário da arte contemporânea brasileira.
Com curadoria de Bárbara Rodríguez Muñoz, diretora de exposições e da coleção do Centro Botín, a mostra reúne obras de diferentes períodos, desde a pesquisa desenvolvida na década de 1990 até novas elaborações formais criadas na década atual. A exposição inclui peças do ateliê do artista e de coleções institucionais e privadas, além de duas instalações concebidas especificamente para a arquitetura e o entorno do centro. Aberta ao público de 10 de outubro de 2026 a 28 de março de 2027, a mostra oferece uma exploração de uma trajetória na qual a experimentação com materiais não é apenas uma escolha estética, mas uma forma de conhecimento.
Desde a década de 1980, Pessoa desenvolveu uma linguagem que abrange escultura, pintura, desenho, vídeo, performance e instalação. Essa diversidade de mídias reflete uma investigação persistente sobre memória, ciclos de vida, espiritualidade e a relação entre a humanidade e o mundo natural. Em suas obras, as formas parecem emergir de um reino anterior à classificação racional: organismos imaginários, vestígios de cerimônias ancestrais ou presenças que aludem tanto ao nascimento quanto à decadência. O inquietante coexiste com o sagrado, e a atração sensorial com um certo desconforto diante da realidade física da matéria.
O universo de Pessoa está profundamente enraizado em Minas Gerais, território brasileiro de grande riqueza mineral e biodiversidade, também marcado pela história colonial e pelo legado do chamado Barroco Mineiro. Seus rios, montanhas, minas e tradições culturais constituem um horizonte de referências que a artista reelabora sem recorrer a uma representação descritiva da paisagem. A terra aparece como uma entidade ativa, carregada de vestígios históricos e energias simbólicas. Os materiais orgânicos e minerais que ela incorpora em suas obras funcionam como fragmentos desse ambiente, mas também como repositórios do tempo: preservam marcas de transformação, desgaste e desaparecimento.

Essa relação com a terra assume uma dimensão particularmente significativa em uma prática que evita separar natureza e cultura, corpo e paisagem. A matéria não é apresentada como um suporte neutro a serviço de uma ideia preconcebida; é a própria matéria que produz significado. Suas texturas, densidades, brilhos e opacidades articulam uma experiência que, por vezes, precede qualquer interpretação. Em contraste com uma tradição artística que frequentemente situou a espiritualidade no âmbito da imagem ou da representação, Pessoa parece buscar o transcendente na presença física das coisas, em sua capacidade de conter aquilo que não pode ser totalmente explicado.
O título , Do Dia ou da Noite, aponta precisamente para essa suspensão de categorias estáveis. Luz e escuridão, humano e animal, sagrado e profano, sonho e vigília não se organizam como termos opostos, mas como forças que se influenciam mutuamente. Nas palavras da curadora, um dos aspectos mais fascinantes da obra de Pessoa reside no fato de que o espiritual nunca aparece separado do físico, mas emerge da própria intensidade da matéria. A exposição propõe, assim, uma experiência em que as oposições perdem sua rigidez e dão lugar a um espaço de ambiguidade e contemplação.

Essa ambiguidade não é mera figura de linguagem. Ela constitui um dos núcleos críticos de sua obra. Os trabalhos de Pessoa resistem a uma interpretação unívoca e desafiam a separação moderna entre o natural e o cultural, o primitivo e o contemporâneo, o racional e o intuitivo. Sua iconografia se baseia em diversas referências, desde cosmogonias indígenas e tradições africanas até o Barroco colonial, o Modernismo brasileiro, a Land Art , a Arte Povera, o Surrealismo e o simbolismo pré-histórico. Contudo, essas influências não se apresentam como citações reconhecíveis ou como um repertório iconográfico ordenado, mas sim como elementos submetidos a um processo de apropriação e transformação.
Nesse sentido, sua prática pode ser relacionada à tradição da antropofagia cultural formulada pelo modernismo brasileiro: a assimilação crítica de línguas e heranças heterogêneas para produzir uma voz única. Pessoa incorpora referências indígenas, africanas e europeias sem estabelecer uma hierarquia estável entre elas. Seu trabalho não busca reconstruir uma origem imaculada, mas sim ativar a coexistência de diferentes memórias culturais. Essa operação é especialmente relevante em um contexto em que as narrativas sobre identidade, território e patrimônio exigem novas formas de interpretação que não reduzam a complexidade histórica a uma genealogia linear.
O diálogo com o Barroco mineiro e com a obra de Aleijadinho, uma de suas figuras-chave, permite aprofundar essa relação. As esculturas e os projetos arquitetônicos desse artista, ligados à histórica cidade de Ouro Preto, são referência pela intensidade expressiva, pelas reviravoltas e pela concepção da forma como veículo para a experiência espiritual. Pessoa compartilha com o Barroco a inclinação ao excesso, à acumulação e à tensão entre presença física e transcendência. Mas, enquanto a escultura barroca se articula tipicamente por meio de figuras e narrativas religiosas, sua obra desloca o centro de gravidade para uma corporeidade orgânica, menos estável e mais difícil de decifrar.

O resultado é uma materialidade visceral que rejeita a idealização. Cabelo, cera, couro e outras substâncias orgânicas introduzem uma proximidade física no espaço expositivo que pode ser ao mesmo tempo hipnótica e inquietante. A acumulação de elementos, a densidade das superfícies e a deformação das formas geram corpos que parecem estar em constante transformação. Não são organismos totalmente reconhecíveis nem abstrações dissociadas da vida, mas sim presenças limítrofes que desafiam a classificação. Neles, a beleza não se opõe necessariamente à inquietação, e a experiência estética incorpora também a vulnerabilidade, a decadência e a consciência da finitude.
A escolha desses materiais também abre espaço para uma reflexão sobre o tempo. Ao contrário dos suportes concebidos para garantir a estabilidade e a permanência da obra, muitas das substâncias utilizadas por Pessoa carregam consigo a possibilidade de deterioração. Elas se transformam, degradam e retêm os vestígios de processos físicos que escapam ao controle absoluto do artista. Essa condição introduz uma temporalidade que não se limita à data de produção ou à história da obra. Cada peça parece conter um antes e um depois, uma memória que precede seu aparecimento e uma transformação que continua para além de sua apresentação pública.
A exposição no Centro Botín é particularmente interessante porque conecta as primeiras pesquisas de Pessoa com seus desenvolvimentos mais recentes. Esse diálogo entre períodos permite observar como certas intuições formais persistem, mesmo quando mudam de escala, complexidade ou configuração. As duas novas instalações concebidas para o edifício e seus arredores expandem ainda mais a relação entre obra de arte e espaço. A arquitetura deixa de ser um recipiente neutro e se torna participante ativa da experiência, enquanto o ambiente é incorporado como uma dimensão que pode alterar a percepção das obras e suas ressonâncias.
A proposta também levanta uma questão sobre os limites da exposição como ferramenta interpretativa. Como exibir uma obra que parece resistir à explicação e encontra parte de seu poder naquilo que permanece obscuro? A resposta não reside em decifrar cada referência ou estabelecer um significado definitivo, mas em criar as condições para uma percepção atenta às relações entre matéria, corpo e espaço. O desafio é evitar que a dimensão ritual dessas obras seja reduzida a uma leitura exótica ou a uma invocação genérica do ancestral. Sua complexidade exige o reconhecimento tanto da especificidade cultural de suas referências quanto da autonomia formal com que o artista as transforma.
A exposição é acompanhada por uma publicação com textos de Maria Berbara, doutora em História da Arte e pesquisadora especializada em história da arte e cultura visual, e do curador e escritor Ángel Calvo Ulloa, além de uma contribuição de Rodríguez Muñoz. Pessoa também ministrou recentemente a mais recente oficina de arte da Fundação Botín em Santander, atividade que amplia sua presença na instituição para além do espaço expositivo.