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Exposicions

Cuba, entre a pátria e a sobrevivência

Cuba, entre a pátria e a sobrevivência
bonart roma - 21/09/26
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Nas ruas de Havana, nas paisagens mais agrestes da parte leste da ilha, dentro das casas ou nos gestos cotidianos daqueles que enfrentam as dificuldades do presente, Valerio Bispuri encontra as imagens de uma sociedade atravessada por crises, mas também por uma memória e um sentimento de pertencimento que permanecem profundamente enraizados.

Pátria ou Morte. Vozes de uma ilha que resiste reúne 33 fotografias do renomado fotojornalista italiano durante sua imersão na Cuba contemporânea, em junho e julho de 2026. A exposição, que pode ser visitada de 9 a 27 de setembro na Galeria Santa Rita, propõe uma jornada dividida em quatro seções narrativas que partem de Havana rumo às regiões orientais da ilha para abordar, além da dimensão política do título, uma questão muito mais complexa: o que significa pertencer a um lugar quando esse lugar atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história recente.

Bispuri construiu grande parte de sua carreira focando naqueles que permanecem à margem das narrativas convencionais. Sua fotografia busca tornar visíveis as realidades geralmente relegadas às margens, e em Cuba, essa abordagem documental encontra uma sociedade onde os vestígios da crise fazem parte do cotidiano. Ruas cobertas de lixo, moradias dilapidadas, paisagens devastadas e rostos que encaram diretamente a câmera coexistem com cenas domésticas, brincadeiras infantis e pequenos gestos que revelam uma capacidade de resiliência que não precisa ser dramatizada.

A luz desempenha um papel fundamental nesta narrativa. Ela surge entre as sombras das ruas, penetra nos interiores das casas e se concentra no brilho de uma fogueira improvisada usada para preparar comida. Não se trata apenas de um recurso formal, mas de uma maneira de construir uma perspectiva sobre uma realidade que desafia interpretações simplistas. A fotografia de Bispuri se move precisamente nesse espaço de tensão entre a precariedade visível e o que permanece oculto: laços familiares, memória, crenças e uma identidade construída ao longo de gerações.

“Ter fotografia significa, acima de tudo, mergulhar mais fundo, compreender o significado de um olhar, um gesto, um movimento”, explica o fotógrafo. Dessa perspectiva, Patria o Muerte (Pátria ou Morte) se distancia de uma abordagem exclusivamente política de Cuba. O próprio título vem de uma das expressões mais reconhecidas da Revolução Cubana, uma frase que há décadas está presente nas escolas, praças públicas, discursos e no cotidiano do país. Mas Bispuri observa como essas palavras podem adquirir uma dimensão diferente hoje.

"Para além da mensagem política, elas contam a história da profunda relação entre um povo e a sua terra", observa ele. A sua experiência durante a viagem permitiu-lhe ver como, para além das dificuldades económicas, da escassez de bens essenciais, do isolamento e das transformações sociais, persiste um laço emocional com a história da Revolução e com o que ela representou para várias gerações de cubanos.

A exposição ocupa, portanto, um território ambíguo, distante tanto da imagem idealizada da Cuba revolucionária quanto de uma representação reduzida unicamente à crise. Entre esses dois extremos, emerge uma sociedade complexa, marcada pelas contradições do presente e pela persistência de uma memória coletiva. A câmera não busca resolver essas contradições, mas sim torná-las visíveis.

Nesse contexto humano, a dimensão espiritual da ilha também adquire especial relevância. Cuba é, além disso, a terra de Nossa Senhora da Caridade de El Cobre, padroeira do país e figura profundamente enraizada em seu imaginário popular. Religião, memória, revolução, família e território formam uma mesma tapeçaria cultural na qual a identidade cubana não pode ser explicada apenas por meio da política ou de estatísticas econômicas.

As fotografias de Bispuri exploram precisamente esse território onde o visível nunca esgota o real. Nos rostos, nas casas, nas ruas e nas paisagens, surge uma Cuba ferida, mas também uma Cuba que permanece conectada à sua terra. Uma ilha onde a pátria pode ser um slogan, uma memória, uma herança ou um sentimento íntimo, e onde, mesmo em meio à incerteza, persiste um obstinado senso de pertencimento.

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