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Albert Serra retrata a vida de Ingrid Caven através da música.

Seize moments de ma vie recupera, na forma de um retrato cinematográfico experimental, dezesseis canções autobiográficas da artista alemã durante um concerto no Théâtre des Bouffes du Nord, em Paris.

Albert Serra retrata a vida de Ingrid Caven através da música.
bonart sant sebastià - 20/09/26

Albert Serra retorna ao Festival de San Sebastián com Seize moments de ma vie , um novo exercício cinematográfico que se distancia das convenções narrativas e que tem como protagonista Ingrid Caven, cantora e atriz alemã ligada a alguns dos episódios mais singulares do cinema e da cultura europeia das décadas de 1960 e 1970. O cineasta de Banyoles, nascido em 1975, constrói um retrato que não busca explicar uma biografia de forma convencional, mas sim abordar a figura de Caven através da música, da presença de palco e da memória.

O ponto de partida é um concerto realizado no Théâtre des Bouffes du Nord, em Paris, onde Caven interpreta um repertório composto por dezesseis canções autobiográficas. Cada peça remete a um momento de sua vida e permite a Serra construir uma espécie de autorretrato fragmentário no qual voz, gesto e tempo adquirem tanta importância quanto qualquer elemento estritamente narrativo. A artista alemã, agora com mais de 80 anos, torna-se, assim, o centro de uma proposta que observa a passagem do tempo sem a necessidade de transformá-la em uma história cronológica.

O filme conta com a participação de Ingrid Caven, Marc Verdaguer, Ferran Font e Enric Juncà, enquanto a música incorpora obras de Ferran Font, Enric Juncà, Joe Robinson e Marc Verdaguer. A fotografia é de Artur Tort, responsável por dar forma visual a um dispositivo que transita entre o documentário, a gravação de performance e a experimentação cinematográfica.

Em vez de colocar Caven diante de uma câmera com o intuito de reconstruir sua carreira, Serra deixa que as canções articulem a história. O concerto se torna um espaço de memória e música, uma forma de acessar uma personalidade artística marcada por sua relação com o cinema, o teatro e a vanguarda europeia. O resultado é uma obra que parece menos interessada em explicar quem é Ingrid Caven do que em observar o que resta de uma vida quando evocada através da performance.

A proposta, portanto, mantém algumas das constantes do cinema de Serra: o interesse por figuras que transcendem as categorias convencionais, a tensão entre realidade e representação e uma concepção particular do tempo cinematográfico. O diretor não busca acelerar a narrativa, mas sim permitir que os momentos cênicos respirem e que a personalidade de Caven emerja progressivamente por meio de sua voz e presença.

A relação de Serra com o Festival de San Sebastián acrescenta uma nova camada a esta estreia. O cineasta catalão ganhou a Concha de Oro com Tardes de Soledad , obra que gerou um amplo debate sobre sua perspectiva do mundo das touradas e que posteriormente cedeu lugar a Los Domingos como vencedor do prêmio máximo do festival. Agora, Serra retorna à programação de San Sebastián com uma obra de natureza muito diferente, mas igualmente distante dos mecanismos mais previsíveis do cinema convencional.

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