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Exposicions

Sonhando com fogo

María Abaddon transforma corpo, memória e matéria em paisagens híbridas.

Sonhando com fogo
bonart lima - 06/09/26

Na obra de María Abaddon, o corpo surge como um território em transformação. Fragmentado, vulnerável e permeado pela memória, torna-se também material para imaginar outras formas de existência. Partindo dessa premissa, "Sonhando com Fogo " reúne uma seleção de trabalhos criados pela artista peruana entre 2020 e o presente no Espaço Venancio Shinki do Centro Cultural ICPNA, em Lima, marcando sua primeira exposição individual em uma instituição peruana.

Com curadoria de Miguel López, a exposição oferece uma jornada através de peças que evocam fragmentos anatômicos, cenas de luto e organismos de difícil classificação. Longe de representar o corpo como uma estrutura estável, Abaddon o compreende como um espaço aberto à transformação, onde o humano coexiste com o animal e a planta. Fragilidade, perda e vestígios de experiências pessoais permeiam obras que nos convidam a refletir sobre o que resta quando o corpo se transforma ou desaparece.

O artista constrói este universo através de uma combinação de técnicas e materiais que expandem as possibilidades da escultura. Feltro úmido, crochê, bordado e escultura têxtil coexistem com elementos de baixa tecnologia , sensores e dispositivos eletrônicos. O resultado são formas orgânicas e arquiteturas estranhas que parecem existir a meio caminho entre um organismo vivo, uma paisagem imaginada e um resquício de um futuro incerto.

Nessas obras, a pele e as vísceras deixam de ser meras referências anatômicas, tornando-se superfícies a partir das quais se exploram a violência, a fragmentação e a transformação. Abaddon desenvolve, assim, uma espécie de anatomia fantástica em que formas animais e vegetais se misturam com imagens da cultura popular e da ficção científica. Suas esculturas podem parecer simultaneamente familiares e perturbadoras, como se pertencessem a um mundo que conhecemos, mas que sofreu uma mutação.

A dimensão têxtil ocupa um lugar central nesta pesquisa. Fios, tramas e superfícies macias permitem à artista construir corpos que escapam à rigidez escultural tradicional. São organismos que parecem crescer, deformar-se ou sobreviver, estabelecendo relações de coexistência entre diferentes espécies e materiais. A tecnologia também introduz uma dimensão quase sensorial a essas paisagens, reforçando a sensação de estar na presença de corpos em constante transformação.

  • A exposição 'Soft Inside' de Abaddon, alguns meses atrás.

Referências a fantasias fúngicas, narrativas distópicas e imaginários pós-colapso ampliam o escopo interpretativo da exposição. Em vez de simplesmente retratar a destruição, Abaddon postula a possibilidade de que novas formas de vida possam surgir após a ruptura. O corpo fragmentado deixa então de ser meramente uma imagem de perda e se torna, por sua vez, o ponto de partida para a transformação.

Nascida em Lima em 1988, María Abaddon é artista visual, escultora e designer têxtil. Formada em Belas Artes pela Escola Superior Nacional Autônoma de Belas Artes do Peru, sua prática explora experiências relacionadas à religião, maternidade, ritual e morte. Em Sonhando com Fogo , essas questões pessoais ganham uma dimensão mais ampla, construindo um universo onde o íntimo encontra o fantástico.

A exposição, que pode ser visitada até 27 de setembro de 2026 no ICPNA Cultural em Lima, levanta, portanto, uma questão sobre a nossa própria condição corporal: o que resta de nós quando a matéria se transforma e até que ponto um corpo pode ir antes de se tornar outra coisa.

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