O Centro de Arte Hortensia Herrero acolhe uma exposição dedicada a Anselm Kiefer, um dos grandes nomes da arte contemporânea europeia e artista que fez da memória, da história e da matéria os eixos centrais da sua linguagem, até 25 de outubro de 2026. A exposição, aberta de 29 de abril a 25 de outubro, ocupa seis galerias no espaço valenciano e reúne onze obras, quatro das quais fazem parte da coleção permanente.
A exposição nos permite adentrar um universo monumental onde pintura, escultura e arquitetura se fundem. Kiefer trabalha com superfícies densas, marcadas por camadas, rachaduras, texturas e materiais que evocam a passagem do tempo e a fragilidade da memória. Palha, chumbo, cinzas, terra, madeira ou elementos vegetais são parte integrante de seu vocabulário, transformando as obras em territórios físicos que parecem ter sofrido as mesmas feridas da história que representam.
Seu trabalho frequentemente parte de um diálogo entre passado e presente. A história alemã, a mitologia clássica, a literatura, a filosofia, a música e a paisagem surgem como fontes de um imaginário que evita leituras simplistas e convida à reflexão sobre destruição, memória, identidade e reconstrução.

Nas salas do Centro de Arte Hortensia Herrero, essas preocupações se desdobram por meio de obras inspiradas em mitos clássicos e textos de poetas como Charles Baudelaire, Walther von der Vogelweide e Rainer Maria Rilke. A música também ocupa um lugar de destaque em seu universo, com referências a composições como Der Tod und das Mädchen (A Morte e a Donzela ) de Franz Schubert.
A experiência proposta, portanto, assemelha-se mais a uma viagem por uma paisagem mental do que a uma sucessão convencional de pinturas. As grandes dimensões, a densidade dos materiais e a carga simbólica das peças geram uma atmosfera imersiva na qual o visitante se encontra diante de obras que falam do tempo não apenas pelo seu conteúdo, mas também pela sua própria materialidade.
Kiefer é um artista particularmente interessado no que resta após a destruição. Suas obras assemelham-se a ruínas, arquivos ou paisagens arqueológicas em permanente transformação. O chumbo, material recorrente em sua produção, adquire, assim, uma dupla condição: é peso e é memória. A superfície deixa de ser um simples suporte para se tornar um espaço onde se acumulam camadas de história.

Essa forma de compreender a arte levou Kiefer a intervir em alguns dos espaços mais emblemáticos da cultura ocidental. Em 2007, ele se tornou o primeiro artista desde Georges Braque a receber uma encomenda para criar uma instalação permanente para o Museu do Louvre, em Paris. Onze anos depois, em 2018, sua escultura Uraeus foi apresentada em frente ao Rockefeller Center, em Nova York, em uma intervenção site-specific que colocou a monumentalidade da obra em diálogo com a arquitetura urbana.
Seu vínculo com a França se fortaleceu em 2020, quando o presidente Emmanuel Macron o incumbiu de uma instalação permanente para o Panteão em Paris, um dos grandes monumentos da memória francesa.
A carreira de Kiefer é marcada, em suma, por esse desejo de confrontar a arte com o legado da história. Suas obras não buscam simplesmente representar o passado, mas torná-lo presente por meio da matéria. Em Valência, as onze peças reunidas no Centro de Arte Hortensia Herrero oferecem a oportunidade de adentrar esse território complexo, onde a literatura encontra a música, o mito encontra a história e a paisagem encontra a memória.
