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Exposicions

De Cerdà a Brasília: as dez cidades ideais que imaginaram o futuro do planejamento urbano

O COAC acolhe uma exposição que abrange um século de projetos visionários e reivindica o legado internacional de Ildefons Cerdà no âmbito da Capital Mundial da Arquitetura e do Ano Cerdà.

De Cerdà a Brasília: as dez cidades ideais que imaginaram o futuro do planejamento urbano
bonart barcelona - 24/07/26

O planejamento urbano é muito mais do que uma disciplina técnica. É uma forma de imaginar como queremos viver, coexistir e construir as cidades do futuro. Partindo dessa premissa, o Departamento de Território, o Colégio de Arquitetos da Catalunha (COAC) e a Universidade Politécnica da Catalunha (UPC) apresentam "Modelos, cidades e utopias 1859-1958" , uma exposição que nos convida a explorar um século de ideias que marcaram a história do planejamento urbano moderno.

Integrada na programação da Capital Mundial da Arquitetura e do Ano Cerdà, a exposição reúne dez projetos que, seja na teoria ou na prática, influenciaram decisivamente a maneira de pensar e planejar as cidades contemporâneas. Alguns chegaram a transformar o território; outros permaneceram no âmbito da utopia. Todos, porém, compartilham a mesma ambição: responder aos grandes desafios de seu tempo e imaginar uma nova forma de habitar o mundo.

A exposição apresenta uma jornada cronológica entre 1859 e 1958, período em que arquitetos, engenheiros e urbanistas formularam algumas das propostas mais revolucionárias da história da disciplina. Essas visões, muitas vezes radicais ou controversas à época de seu surgimento, continuam a alimentar o debate atual sobre sustentabilidade, mobilidade, espaço público e a relação entre cidade e paisagem.

Do Eixample de Cerdà à utopia espacial

O ponto de partida é o Eixample de Barcelona, projetado por Ildefons Cerdà em 1859, que se tornou uma das contribuições mais influentes para o urbanismo moderno. Definida por Manuel de Solà-Morales como "o sucesso prático de um projeto teórico", a proposta de Cerdà continua sendo uma referência internacional graças a uma concepção de cidade baseada na igualdade de acesso, higiene, mobilidade e qualidade de vida.

Partindo desse modelo fundador, a visita guiada apresenta outras grandes visões urbanas que redefiniram a disciplina. Inclui a Ciudad Lineal de Arturo Soria i Mata, que transformou a ferrovia no eixo estruturante do crescimento urbano; a Garden City de Ebenezer Howard, pioneira na integração entre cidade e natureza; e a Cité Industrielle de Tony Garnier, que propôs uma nova organização urbana baseada em funções produtivas.

Também estão presentes movimentos que transformaram o planejamento do século XX, como o City Beautiful de Daniel Burnham e Edward H. Bennett, com sua monumentalidade urbana; o plano Amsterdam Zuid de Petrus Berlage, um paradigma de habitação social de qualidade; ou a Broadacre City de Frank Lloyd Wright, uma cidade descentralizada em estreita relação com o território.

O passeio culmina com três dos projetos mais emblemáticos da modernidade: Chandigarh, idealizada por Le Corbusier como a nova capital da Índia independente; Brasília, projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer como um símbolo do Brasil moderno; e La Ville Spatiale, de Yona Friedman, uma proposta visionária que levou a arquitetura a uma dimensão quase utópica, imaginando estruturas altas capazes de se adaptar às necessidades mutáveis da sociedade.

Documentos, modelos e uma leitura comparativa

Com curadoria de Carles Crosas, Fernando Marzá e Beth Tuà, a exposição oferece uma abordagem didática e comparativa a esses dez modelos urbanos. O visitante encontrará réplicas de documentos históricos, fotografias atuais dos espaços construídos e relevos em escala que permitem analisar as diferentes propostas numa perspectiva transversal.

A seleção baseia-se em obras de referência da teoria urbana, como Utopias e Realidades (1965), de Françoise Choay, ou Cidades do Amanhã (1987), de Peter Hall, e destaca como muitas das questões levantadas há mais de um século ainda são plenamente válidas: densidade urbana, mobilidade, relação com o meio ambiente natural, habitação ou a construção de espaços coletivos.

Além do valor histórico dos projetos, a exposição comprova a capacidade do planejamento urbano de antecipar transformações sociais e imaginar futuros possíveis. As cidades ideais não aparecem aqui como meros exercícios de fantasia, mas como laboratórios de ideias que condicionaram a maneira como entendemos as metrópoles contemporâneas.

Reivindicando o legado de Cerdà

Um dos principais objetivos da exposição é resgatar o lugar de Ildefons Cerdà na história internacional do planejamento urbano. Sua teoria geral da urbanização e o projeto para o Eixample de Barcelona são apresentados como um marco fundamental que influenciou inúmeras experiências subsequentes e que ainda hoje inspira pesquisadores e urbanistas em todo o mundo.

No contexto da Capital Mundial da Arquitetura e do Ano Cerdà, a exposição torna-se, assim, uma oportunidade para compreender como Barcelona não é apenas objeto de reflexão arquitetônica, mas também a origem de uma forma inovadora de pensar a cidade.

A exposição pode ser visitada até 18 de outubro na sede do COAC, distribuída entre os andares Àgora e Altell do edifício. A entrada é gratuita e oferece um passeio essencial tanto para especialistas em arquitetura quanto para qualquer pessoa interessada em descobrir como as grandes utopias urbanas do passado continuam a inspirar as cidades do futuro.

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