O Museu Nacional de Belas Artes criou uma exposição, em cartaz até 16 de agosto, que transcende a natureza de uma simples mostra de aquisições. Sob a aparência de uma exposição patrimonial, a mostra propõe uma reflexão sobre os mecanismos pelos quais um museu constrói — e também corrige — a narrativa oficial da história da arte no Chile.
A exposição reúne 18 das 55 obras incorporadas à coleção do MNBA em 2025, um conjunto que demonstra uma mudança institucional rumo a uma coleção mais diversa e descentralizada, representativa das múltiplas vozes que moldaram a produção artística nacional. Longe de encarar essas aquisições como uma mera coleção de objetos, a exposição nos convida a considerar a coleção como um organismo vivo, em constante evolução.
As obras abrangem um amplo período e diversas disciplinas. Pintura, escultura, fotografia, gravura e arte têxtil coexistem em uma seleção onde o diálogo entre gerações assume um significado especial. Dos mestres do século XIX aos artistas contemporâneos, a exposição permite observar como as preocupações estéticas, sociais e políticas se transformam sem perder a continuidade.
Uma das seções mais significativas compreende um conjunto de seis pinturas do histórico Club de la Unión, entre as quais se destaca um retrato pintado na Europa por Alfredo Valenzuela Puelma, obra que mais uma vez insere o artista no contexto internacional que moldou sua produção. Além disso, há três peças que participaram da Exposição Internacional do Centenário de 1910, verdadeiros documentos visuais de um momento fundamental para a arte chilena.
Merece destaque especial "Caseríos de Valparaíso" (c. 1911), de Alfredo Helsby, uma pintura que desmantela a imagem usual do artista como um pintor de paisagens dedicado à natureza sublime. Aqui, o porto surge como palco de tensões sociais e urbanas, revelando um interesse pela vida cotidiana e pela expansão da cidade que amplia consideravelmente a leitura crítica de sua obra.
Contudo, uma das maiores conquistas curatoriais reside na presença de numerosas artistas mulheres, cuja inclusão cumpre uma obrigação histórica do museu. A exposição inclui o "Retrato de Matilde Pérez", criado por Ana Cortés, figura essencial do modernismo chileno e vencedora do Prêmio Nacional de Arte de 1994. Também digna de nota é "Pachamama" (1981), de Ester Chacón, onde a tecelagem deixa de ser apenas um meio artesanal e se transforma em uma linguagem escultórica e pictórica capaz de articular memória, território e cosmovisão andina.
A análise prossegue com "Germinal Four" (1971), de Carmen Piemonte, cuja abstração reafirma a relevância de uma artista pouco estudada, enquanto a série "Autorretrato" (1981), da fotógrafa brasileira Inés Paulino, documenta com precisão o cenário intelectual e cultural dos anos oitenta, diluindo as fronteiras entre registro documental e construção de identidade.
A visita guiada também incorpora o poder expressivo de Laura Rodig com Mulher Indígena (1924-1929), a dimensão conceitual de Alicia Villarreal através do Projeto Transferência (1981), e culmina com "Cordilheira Darwin" (2020), de Josefina Guilisasti, uma pintura monumental que estabelece uma ponte entre a tradição paisagística chilena e as preocupações contemporâneas sobre território, natureza e crise ambiental.
Para além das obras individuais, a exposição ganha significado pelo processo que as tornou possíveis. As 55 aquisições realizadas em 2025 são fruto do trabalho do Comitê de Aquisições do MNBA, que promoveu uma pesquisa sistemática com o objetivo de identificar lacunas no acervo. A estratégia não se resume a adicionar nomes, mas sim a rever criticamente os critérios que historicamente definiram quais artistas e narrativas mereciam um lugar no patrimônio nacional.
Nesse sentido, a exposição demonstra uma política museológica que busca equilibrar a representação de artistas mulheres, fortalecer a presença de criadoras contemporâneas e ampliar a perspectiva para incluir obras desenvolvidas fora dos canais tradicionais de reconhecimento. A inclusão de artistas emergentes ao lado de figuras consagradas resulta em uma coleção menos linear, mais aberta ao diálogo entre diferentes gerações e regiões.
Entre os artistas cujas obras entraram na coleção durante 2025 estão Dionisio Baixeras y Verdaguer, Eugène Benjamin Selmy, Daniela Bertolini O'Ryan, Gabriela Carmona Siler, Enrique Castro-Cid, Gonzalo Castro Colimil, Rodrigo Castro Torres, Ester Chacón Ávila, Ana Cortés Jullian, Máximo Corvalán-Pincheira, Thérèse Marthe Françoise Cotard-Dupré, Ludmilla (Luma) von Flech-Brunningen, Patricia Domínguez, Andrés Durán Dávila, Virginia Errázuriz Guilisasti, Mario Fonseca Velasco, Nury González Andreu, Zaida González Ríos, Josefina Guilisasti Gana, Alfredo Helsby Hazell, Cristián Inostroza Cárcamo, Pablo Langlois Vicuña, Pablo Lincura, Luis Montes Becker, Patricia Israel, Natália (Otan) Montoya Lecaros, Mariana Najmanovich Sirota, Camilo Ortega Prieto, Endi Paredes, Inés Paulino Mori, Carlos Peters Barrera, Carmen Piemonte, Hugo Rivera Scott, Laura Rodig Pizarro, Janet Toro Benavides, Marcela Trujillo Espinoza, Alfredo Valenzuela Puelma, Alicia Villarreal Mesa e Félix Ziem, formando um panorama que reflete a amplitude de interesses e perspectivas que o museu busca representa hoje.