O dia 26 de julho marcará o fim da oportunidade de contemplar e dialogar com as lendárias esculturas de Samuel Salcedo no Museu Moco, em Barcelona, uma exposição que cativou o público local e internacional por sua intensidade emocional e poder conceitual.
Na prática artística de Salcedo, o rosto humano torna-se um território emocional, um espaço de tensão e revelação onde convergem identidade, fragilidade e consciência. Suas esculturas funcionam como espelhos psicológicos, dirigindo-se diretamente ao espectador e convidando-o a reconhecer-se nas expressões contidas, muitas vezes ambíguas, que habitam esses corpos silenciosos. Longe da simples representação figurativa, o artista barcelonês explora o rosto como um espaço de projeção, um lugar onde se inscrevem medos, contradições, desejos e estados de espírito universais.

Por meio de uma linguagem escultural de precisão quase perturbadora, Salcedo captura a complexidade da expressão humana, estabelecendo um diálogo constante entre presença e ausência, entre o que é mostrado e o que é intuído. Suas figuras, suspensas em um momento emocional indefinido, cativam a percepção do espectador e abrem um espaço para reflexão sobre a vulnerabilidade como condição essencial da existência humana.
Trabalhando com uma grande variedade de materiais — desde superfícies lisas, quase translúcidas, até texturas ásperas, densas e marcantes — Salcedo confere a cada obra uma presença física e emocional que exige tempo, silêncio e observação atenta. Suas esculturas não se esgotam com um olhar rápido: elas imploram para serem contempladas, exploradas lentamente, como se revelassem-se em camadas.

Cada peça é concebida como um universo em si mesma, um espaço íntimo onde o olhar, a tensão da boca ou as sutis rugas do rosto constroem uma história silenciosa. São gestos mínimos, porém carregados de significado, sugerindo emoções, pensamentos e estados interiores impossíveis de traduzir em palavras, mas profundamente reconhecíveis por aqueles que os abordam com sensibilidade.
As três obras presentes no Museu Moco são Wrecking Ball I, de 2015, Mirror Mirror on the Wall, de 2025, e I'll be your mirror, também de 2025. Em Wrecking Ball I (2015), Samuel Salcedo trabalha a ideia de presença baseada em massa e volume, encapsulando rostos humanos com expressões ambíguas que forçam o espectador a uma leitura lenta e introspectiva do gesto e do peso emocional que projetamos no espaço.

Em Mirror Mirror on the Wall (2025), o rosto se torna um espelho emocional: nenhuma expressão é neutra e cada peça admite múltiplas interpretações dependendo do olhar do observador, trazendo à tona empatia, desconforto e projeção pessoal. Por fim, I'll Be Your Mirror (2025) consolida essa metáfora do espelho com um rosto monumental que devolve uma imagem emocional mutável, lembrando-nos que olhar para a obra sempre implica olhar para si mesmo.