A Galeria Sergi Sánchez inicia uma nova etapa com a inauguração de sua nova sede na Rua Aribau, 76-78, em Barcelona, um espaço concebido com o desejo de ousar, de abrir espaço e de explorar novas possibilidades. A inauguração acontece com Oscur com la llum ( Escuro como a luz ), uma exposição do pintor Paolo Maggis, artista de origem italiana e catalão por adoção, que se torna o manifesto poético e conceitual deste novo ciclo.
Ano novo, espaço novo, história nova. Após celebrar seu segundo aniversário, a galeria — até então focada principalmente em arte africana e artistas consagrados — projeta-se para a arte contemporânea emergente, sem renunciar à solidez discursiva. Sergi Sánchez, também fundador da histórica Galeria Metropolitana de Barcelona juntamente com Pere Soldevila, consolida assim uma linha curatorial com vozes como Vanessa Pey, Carlas Mercader, Xavi Deu, Javier Garcés e o próprio Paolo Maggis, protagonista de uma exposição que marca o início de uma programação intensa, visceral e profundamente reflexiva.
Escuro como a luz
O título da exposição surgiu, como explica o artista, “em um estado de semiconsciência”. E não poderia ser de outra forma: Dark as Light é uma imersão em um território liminar, onde a pintura não representa a realidade, mas a desloca para uma geografia interior, com ressonâncias psicanalíticas e oníricas.

As obras, criadas ao longo de 2025, partem, em sua maioria, de fundos escuros, densos e envolventes, dos quais emergem figuras frágeis e espectrais, suspensas numa atmosfera de desorientação poética. A escuridão não é aqui ausência, mas matéria viva: um líquido amniótico, um útero cósmico onde o tempo para e o corpo se regenera. Não é negação nem morte, mas origem.
“É uma escuridão que, como a luz, queima os limites e os contornos das formas”, diz Maggis.
Uma luz inversa que não ilumina, mas sim revela.
Essa escuridão fala do ser humano contemporâneo, preso em um ritmo frenético, superficial e hipervisual, que precisa de uma pausa — ainda que breve — para se reencontrar. Não há abstração gratuita, mas uma profunda reflexão sobre a identidade, a solidão, o desejo e o medo que permeiam o cotidiano.
Pintar como respirar
As obras de Maggis destacam-se pela sua estética quase física e intensidade emocional. A pintura é construída a partir de velaturas e camadas precisas, porém nervosas, com pinceladas elétricas que transmitem vibrações do corpo e do espaço. O resultado frequentemente evoca imagens em movimento, como fotogramas de um cinema analógico, corroídos pelo tempo e pela memória.

A superfície pictórica, abalada por gestos abruptos, torna-se ela própria um sujeito. O espectador fica preso numa tensão constante: a pintura serve à figura, ou é a figura que serve à pintura? Talvez ambas formem um único corpo, onde o interior e o exterior dialogam — ou lutam — incessantemente.
Maggis introduz fraturas, interferências e distorções que privilegiam o sublime em detrimento do belo. Uma beleza ferida, transpassada pela dor, pela tragédia ou pela fragilidade, que impacta justamente por não buscar agradar.
Além do realismo
Embora trabalhe principalmente com óleo, Maggis incorpora acrílicos, sprays e esmaltes, brincando com os contrastes entre materiais densos e líquidos. Suas imagens provêm do mundo real, de rostos, olhares e cenas reconhecíveis, mas evitam deliberadamente o hiper-realismo frio e desumanizado.
Sua pintura faz parte de uma linha sutil da pintura europeia contemporânea que desafia os limites da percepção convencional, propondo múltiplas camadas de leitura. Ele não pinta com modelos vivos: pinta com imagens internalizadas, com memórias visuais que se transformam em narrativas autônomas.
Cada obra é uma história independente, mas juntas formam um núcleo coletivo: falam do prazer e da devassidão que escondem a vertigem do vazio, da calma que precede uma decisão libertadora, da incerteza cotidiana que nos atravessa sem pedir permissão.
