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bonart medellín - 05/02/26

A exposição Bubuia: Águas como Fonte de Imaginações e Desejos, no MAMM, propõe uma leitura sensível e política da Amazônia como um território em constante transformação. Concebida como a primeira Bienal da Amazônia, a mostra apresenta obras de 54 artistas diferentes e posiciona a água não apenas como um recurso natural, mas como organizadora de memórias, emoções e modos de vida. Em um país como o Brasil, onde o bioma amazônico ocupa um lugar central nos debates ambientais e culturais, Bubuia desloca o foco para uma compreensão mais íntima e relacional do território.

O projeto curatorial inspira-se no "dibubuismo" do poeta e pensador João de Jesus Paes Loureiro, para quem "estar de bubuia" implica uma disposição simultânea para o movimento e a quietude. Longe de ser um gesto passivo, flutuar torna-se uma forma de atenção, um modo de se deixar atravessar pelo ritmo do rio, pelos seus tempos lentos e correntes imprevisíveis. Nesse equilíbrio entre entrega e resistência, configura-se uma ética do habitar.

Ao longo da exposição, as obras são dispostas como fragmentos de um arquivo fluido e vivo. Fotografias, instalações, performances e narrativas orais constroem uma memória que não se fixa em documentos permanentes, mas circula entre corpos, territórios e histórias. Nesse sentido, o rio funciona como um sistema de transmissão cultural, onde experiências coletivas, saberes herdados e formas de resistência cotidiana são depositados. Muitas das peças apresentadas trabalham com imagens, registros e movimento, propondo uma experiência marcada pela circulação.

A noção de uma realidade dual, proposta por Paes Loureiro — uma imediata e outra mediada — permeia toda a exposição. O visitante transita entre o material e o encantado, entre a presença concreta da paisagem e sua dimensão imaginária. Como quem observa um rio, o olhar oscila entre o fundo visível e a superfície em movimento, entre o que pode ser nomeado e o que permanece aberto à interpretação.

Dessa perspectiva, Bubuia evita representar a Amazônia como um território fixo ou exótico. Ao contrário, ela a apresenta como um processo em fluxo, onde identidades, linguagens e emoções estão em constante transformação. Nesse fluxo constante, pode-se ler quase intuitivamente a ideia de Deleuze sobre o devir: a existência não como uma forma fechada, mas como um movimento compartilhado entre corpo, água e memória.

Num contexto marcado pela crise climática e pelas tensões sociais, a bienal defende o desejo como uma força coletiva. Propõe espaços de encontro, reconhecimento e luta, onde a pluralidade não é um discurso abstrato, mas uma experiência vivida. Flutuar, neste sentido, torna-se uma estratégia para evitar afundar na indiferença.

Mais do que uma imersão estética, Bubuia propõe uma forma de conhecimento sensorial. Em meio a bolhas, correntes e narrativas, a exposição constrói uma linguagem em constante evolução: um sinal aberto que nos convida a escutar, a nos mover e a repensar nossa relação com os territórios que habitamos.

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