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Exposicions

Mia Goldstein pinta arte quando ela deixa de ser arte.

Mia Goldstein, Going Up, 2026, Copyright The Artist.
Mia Goldstein pinta arte quando ela deixa de ser arte.

O que acontece a uma obra de arte quando ela sai da galeria? Grande parte da história que molda o mundo da arte se concentra em suas origens: o artista, o processo criativo, o ateliê, o surgimento de uma nova obra e sua chegada ao espaço expositivo. Mia Goldstein volta seu olhar para o extremo oposto. Ela se interessa pelo que acontece depois que a obra é adquirida e inicia sua outra vida, longe do museu e da galeria, nas paredes e nos espaços privados daqueles que a colecionam.

Este território aparentemente secundário torna-se o foco da prática pictórica desta jovem artista americana, que encontra nos interiores de colecionadores um material narrativo com enorme potencial. Sua primeira exposição individual, Handle With Care , apresentada na The Journal Gallery em Nova York de 9 de setembro a 3 de outubro de 2026, leva essa investigação um passo adiante: em vez de simplesmente retratar as obras instaladas em seus destinos finais, Goldstein se interessa pela jornada, por aquele momento em que as peças ainda estão em trânsito e podem aparecer embrulhadas, suspensas, transportadas ou mesmo deslocadas das maneiras menos solenes imagináveis.

  • Mia Goldstein, Frágil, 2026, Direitos autorais da artista.

Sua ligação com esse mundo vem de longa data. Goldstein cresceu em Los Angeles, em uma família ligada à indústria da moda e profundamente interessada em arte e design. Seus pais eram colecionadores e incentivaram seu interesse pela pintura desde muito jovem. Quando chegou à Universidade de Nova York em 2020, planejava estudar História da Arte, mas sua curiosidade gradualmente se voltou para a prática artística, levando-a a mudar de curso e se concentrar em artes plásticas.

Pintar seus temas tal como os encontrava em seu contexto doméstico surgiu quase naturalmente. Seus primeiros trabalhos consistiam em retratar cômodos da casa de sua família em Los Angeles, incorporando às suas pinturas elementos que faziam parte de sua paisagem cotidiana: obras de arte, móveis e diversos detalhes de interiores. Encomendas subsequentes de colecionadores, interessados em que ele pintasse suas próprias salas de estar, reforçaram uma intuição que eventualmente se tornaria o foco central de seu trabalho.

  • Mia Goldstein, Coming Through, 2026, Direitos autorais da artista.

Goldstein começou a alterar progressivamente essas cenas. Partiu de cômodos que conhecia, mas substituiu certas pinturas, móveis ou objetos por outros que refletiam seu próprio gosto. O interior da coleção deixou, assim, de ser um espaço puramente documental e se tornou uma espécie de laboratório estético pessoal. Em suas pinturas, a artista assumiu simultaneamente os papéis de decoradora e curadora, reorganizando o universo visual de colecionadores abastados e usando-o como palco para explorar as relações entre arte, desejo, gosto e representação.

Handle With Care , no entanto, introduz uma nova dimensão. Goldstein não se limita mais a observar as obras depois de instaladas, mas concentra sua atenção nos momentos que antecedem sua chegada. O título funciona quase como uma instrução logística, mas também como uma declaração irônica sobre a fragilidade e o valor simbólico que acompanham certos objetos artísticos. Mover uma peça pode ser um processo meticuloso e sofisticado, mas também uma sucessão de situações estranhas, constrangedoras ou até mesmo cômicas.

  • Mia Goldstein, Para lançamento, 2026, Direitos autorais da artista.

Numa das pinturas, uma obra icônica de Francis Bacon aparece protegida por plástico durante o transporte, introduzindo uma inesperada camada de sfumato à imagem. Noutra, um hipopótamo de resina azul de Lalanne é içado por um guindaste para dentro de um apartamento de luxo. Outra cena mostra um enorme hambúrguer de Claes Oldenburg, cuidadosamente embalado, sendo retirado de um elevador de design cujas dimensões parecem mal suficientes para permitir a passagem da peça.

O transporte torna-se, assim, uma espécie de teatro improvisado, no qual a solenidade habitual da arte contemporânea se depara com as dificuldades físicas da sua própria materialidade. As obras que surgem numa sala de exposições imbuídas de autoridade e prestígio recuperam, por alguns instantes, uma dimensão quase doméstica: são pesadas, ocupam espaço, não passam por uma porta, necessitam de proteção e requerem soluções técnicas para chegar ao local onde serão vistas.

Uma das cenas da exposição, que apresenta uma pintura de René Magritte colocada na traseira de um SUV, surgiu de uma experiência real que Goldstein teve enquanto trabalhava em uma galeria de renome. Um colecionador queria ver como uma pintura avaliada em vários milhões de dólares ficaria em sua própria casa. A solução foi tão simples quanto inusitada: transportá-la no porta-malas de um carro para verificar em primeira mão se a obra de arte cabia naquele espaço.

  • Mia Goldstein, Trunk Show, 2026, Direitos Autorais da Artista.

Grande parte do interesse na pintura de Goldstein reside nesses tipos de episódios. A artista não precisa de grandes gestos para questionar o sistema da arte. Basta observá-lo quando este abandona seus contextos habituais e se depara com situações concretas. A obra-prima deixa de ser meramente uma imagem, um investimento ou um objeto de contemplação, tornando-se algo que também precisa ser embalado, transportado, protegido e exibido.

Goldstein encontra terreno fértil para a pintura precisamente nessa distância entre a aura da obra e sua dimensão material. Seus interiores e cenas de trânsito falam de colecionismo, mas também de como a arte adquire novos significados ao entrar no espaço privado. Handle With Care torna esses deslocamentos os protagonistas e levanta, com um toque de ironia, uma questão sobre o verdadeiro destino das obras de arte: não apenas onde elas acabam, mas tudo o que acontece antes de finalmente encontrarem seu lugar em uma parede.

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