A Sala 5 da DA2 Domus Artium acolhe "Nasci com o Destino de uma Rosa ", um projeto de Ali Arévalo selecionado no 3.º Concurso de Apoio à Criação Artística Contemporânea. A exposição oferece uma releitura crítica e poética de um dos grandes arquétipos da tradição ocidental: o cavaleiro medieval.
Longe de reproduzir a imagem do herói protegido por armadura, Arévalo apresenta um corpo diferente, marcado pela fragilidade, pelo desejo e pela ambiguidade. De uma perspectiva queer e não binária, a figura do cavaleiro se transforma em um território aberto onde coexistem diferentes temporalidades, referências culturais e formas de compreender a identidade.
O projeto estabelece um diálogo entre as narrativas dos mangás Magical Girl e Shōjo e o renascimento das figuras de donzelas guerreiras ligadas às regiões de Salamanca e Castela. Desse encontro emerge um conjunto singular de armaduras frágeis: trajes que não buscam ocultar as vulnerabilidades do corpo, mas sim torná-las visíveis, transformando-as em ornamentos e reivindicando-as como parte essencial da identidade.

A exposição constrói, assim, uma estética transtemporal na qual imaginários aparentemente díspares coexistem. A tradição medieval, a cultura popular japonesa e certos elementos do vestuário castelhano se cruzam para questionar os significados históricos associados ao corpo vestido.
Um dos aspectos fundamentais do projeto reside precisamente nos materiais. Biomateriais de rápida decomposição são combinados com estruturas metálicas, criando um contraste entre o efêmero e o permanente, o macio e o rígido, o vulnerável e o resiliente. A tensão entre essas qualidades chama a atenção de volta para a pele e levanta uma questão sobre o que entendemos por proteção.
Nas obras de Arévalo, a armadura deixa de funcionar como uma barreira. Ela se torna uma extensão do corpo e, ao mesmo tempo, uma superfície a partir da qual se podem explorar outras formas de identidade. A fragilidade não aparece mais como uma fraqueza a ser escondida, mas como uma condição que pode ser celebrada, adornada e transformada.
As vestimentas históricas também estão sujeitas a um processo de deslocamento. Elementos como crinolinas ou as joias do traje charro são reinterpretados e transformados em dispositivos que podem assumir funções defensivas. O gesto artístico consiste não apenas em recuperar objetos do passado, mas em abri-los a novas interpretações e alterar as associações que tradicionalmente os acompanham.
Dobradiças, casas de botão, chaves e portas perfuram roupas e objetos, criando aberturas físicas e simbólicas. Cada um desses elementos introduz a possibilidade de abrir, fechar, transformar ou cruzar fronteiras estabelecidas. Assim, a roupa deixa de ser meramente uma superfície que adorna o corpo e se torna um espaço de negociação entre identidade, memória e representação.

Nascida com o Destino de uma Rosa propõe, em última análise, uma reflexão sobre a possibilidade de desmantelar códigos herdados para reconstruí-los a partir de diferentes perspectivas e sensibilidades. Ali Arévalo transforma a armadura em metáfora daquilo que simultaneamente protege e expõe, propondo uma perspectiva em que o delicado, o mutável e o frágil deixam de ocupar um lugar secundário.
A exposição permanecerá aberta na Sala 5 da DA2 Domus Artium até 4 de outubro de 2026, como um convite a revisitar imagens do passado e questionar quais corpos podem ocupar hoje os espaços tradicionalmente reservados ao herói, ao guerreiro e ao cavaleiro.