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Exposicions

Delcy Morelos, a terra como linguagem de resistência em Bozar

Delcy Morelos, a terra como linguagem de resistência em Bozar
bonart brussel·les - 03/08/26

Rumo ao Bozar, em Bruxelas, onde a artista colombiana Delcy Morelos apresenta uma das intervenções mais ambiciosas de sua carreira europeia. A instalação monumental, em cartaz até 30 de agosto de 2026, reafirma uma das linhas fundamentais da prática de Morelos, que há décadas explora a relação entre o corpo, a paisagem e o saber indígena, posicionando a natureza como sujeito ativo e não como mero recurso a serviço da humanidade.

Reconhecida internacionalmente por suas instalações imersivas feitas com terra, argila, fibras vegetais, sementes e pigmentos naturais, Morelos criou um conjunto de obras que desafia a separação entre arte, ecologia e espiritualidade. Nascida em Tierralta, no departamento colombiano de Córdoba, seu trabalho está profundamente conectado ao conhecimento ancestral dos povos indígenas e afrodescendentes da América Latina, cuja compreensão da terra se torna o núcleo conceitual de sua arte. Em contraste com a lógica extrativista que definiu grande parte da modernidade ocidental, a artista defende formas alternativas de habitar o mundo baseadas no cuidado, na reciprocidade e na interdependência.

A intervenção concebida para o Bozar estabelece um diálogo entre as técnicas construtivas tradicionais sul-americanas e certas formas da arquitetura vernacular europeia. Para alcançar esse objetivo, Morelos emprega materiais biológicos locais — terra, argila e fibras naturais — ressaltando a importância dos recursos locais e dos processos manuais em contraste com a industrialização da construção contemporânea. A colaboração com o arquiteto belga Jasper van der Linden amplia o escopo do projeto, introduzindo uma investigação conjunta sobre a sustentabilidade e as possibilidades arquitetônicas desses materiais em um contexto europeu.

O visitante atravessa um espaço dominado pela textura, pelo aroma da terra úmida, pelas variações de temperatura e pela presença quase orgânica da matéria. A obra evita o espetáculo tecnológico para recuperar uma dimensão sensorial que obriga o visitante a desacelerar e a estabelecer uma relação diferente com o entorno. Nesse sentido, a monumentalidade da proposta reside não apenas em suas dimensões, mas também na intensidade com que altera a percepção do espaço arquitetônico projetado por Victor Horta.

De uma perspectiva crítica, a obra de Morelos situa-se num dos debates mais relevantes da arte contemporânea: a incorporação de epistemologias indígenas como ferramentas capazes de questionar os modelos dominantes de produção cultural e econômica. Sem recorrer a discursos ilustrativos ou propagandísticos, suas instalações propõem uma experiência na qual a própria matéria se torna uma linguagem política. A terra surge como um arquivo de memórias coletivas, mas também como evidência da fragilidade dos ecossistemas e da necessidade de reconstruir uma relação ética com o planeta.

Esta reflexão se conecta com a crescente presença de Delcy Morelos no cenário artístico internacional. Nos últimos anos, seu trabalho tem sido apresentado em importantes exposições e bienais, consolidando uma prática que ressoou particularmente forte na Europa graças à sua capacidade de abordar questões ambientais a partir de uma perspectiva profundamente poética e decolonial. Sua linguagem evita tanto o didatismo quanto a representação literal: são os próprios materiais — seu peso, seu aroma e sua transformação — que constroem o discurso.

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