A saída do México de uma das mais importantes coleções particulares de arte mexicana do século XX abriu um intenso debate sobre a proteção do patrimônio cultural, a transparência institucional e os limites da circulação internacional de obras consideradas de especial relevância histórica.
O coletivo Defenda a Coleção Gelman entrou com três ações judiciais contra o Instituto Nacional de Belas Artes e Literatura (INBAL), órgão responsável pela autorização de permissões de exportação para obras protegidas pela legislação mexicana, considerando que existem dúvidas sobre a base legal que permite a transferência temporária de parte dessa coleção artística para o exterior.
As ações judiciais, protocoladas em 29 de junho e 1º de julho, coincidem com os preparativos para uma turnê internacional de dois anos que levará a coleção para fora do México, começando pela Espanha. Os membros do coletivo argumentam que algumas das obras incluídas são consideradas "monumentos artísticos", categoria que acarreta restrições especiais quanto à sua preservação, movimentação e exportação.
Uma coleção histórica que nasceu no México na década de 1940.
A Coleção Gelman foi reunida a partir da década de 1940 pelo produtor de cinema judeu Jacques Gelman e sua esposa Natasha Zahalka, importantes expoentes da arte moderna mexicana. Durante décadas, a coleção tornou-se uma referência internacional para a compreensão da evolução artística do país ao longo do século XX.
Atualmente denominada Coleção Gelman Santander, reúne 161 obras de figuras importantes como Frida Kahlo, Diego Rivera, José Clemente Orozco, David Alfaro Siqueiros e María Izquierdo.
Entre suas obras mais reconhecidas estão as pinturas a óleo de Kahlo, Autorretrato com Macacos (1943) e Diego em Minha Mente (1943), obras que fazem parte do imaginário internacional associado à arte moderna mexicana.
Em janeiro, foi anunciado que a coleção seria administrada pela Fundação Banco Santander por meio de um acordo institucional de cinco anos. O acordo também revelou que parte da coleção estava vinculada, desde 2023, à família Zambrano, conhecida por suas atividades comerciais no setor de cimento.
A viagem à Europa que gerou controvérsia
A primeira parada da turnê será no norte da Espanha, como parte da programação inaugural do Faro Santander, o novo espaço cultural lançado pelo banco, com inauguração prevista para setembro. Em seguida, a coleção viajará para a Fundação Beyeler em Basileia e para o Museu Nacional da Noruega, antes de retornar ao México em 2028 para uma exposição no Museu de Arte Contemporânea de Monterrey.
Entretanto, parte da coleção pode ser vista atualmente no Museu de Arte Moderna da Cidade do México, onde 68 peças estão em exibição para o público mexicano pela primeira vez em quase vinte anos, como parte da exposição Histórias Modernas: Obras Emblemáticas da Coleção Gelman Santander , que será encerrada em 19 de julho.
Apelo por maior transparência
A controvérsia começou a crescer em março, quando centenas de profissionais do setor cultural mexicano assinaram uma carta aberta exigindo maior clareza no processo de exportação, especialmente em relação às obras de Frida Kahlo.
"A diferença entre os esforços feitos para recuperar o patrimônio arqueológico mexicano e a facilidade com que obras fundamentais da arte nacional são autorizadas a deixar o país é surpreendente", afirmou o documento, alertando para a importância de preservar peças ligadas à identidade cultural do país.
O historiador de arte Francisco Berzunza e outros promotores do coletivo Defendamos la Colección Gelman começaram então a investigar o estatuto jurídico das obras, questionando aspetos relacionados com a propriedade, a gestão e as condições de exportação temporária.
Entre suas preocupações está a aquisição feita em 2023 pela família Zambrano do testamenteiro de Natasha Zahalka, Robert Littman. O grupo afirma que Littman posteriormente assumiu as responsabilidades de conservação e gestão da coleção, além de manter vínculos com sua propriedade, uma situação que consideram obscura.
A INBAL defende a legalidade do acordo.
Em resposta às críticas, o INBAL afirmou que a remoção das obras de arte está em conformidade com a legislação mexicana e que a colaboração com a Fundação Banco Santander não constitui uma venda ou transferência de propriedade para instituições estrangeiras.
"O acordo se limita à pesquisa, conservação e programação cultural internacional. Não envolve a transferência de propriedade ou a venda de qualquer obra de arte para instituições estrangeiras", afirmou a organização, explicando que o nome Coleção Gelman Santander é apenas um reflexo da parceria institucional estabelecida.
Por sua vez, a Fundação Banco Santander declarou que respeitará as leis mexicanas em todos os momentos e que as obras retornarão ao país após o término da turnê internacional.
A disputa abre, portanto, um debate mais amplo sobre o equilíbrio entre a disseminação internacional do patrimônio artístico e a proteção de coleções que fazem parte da memória cultural de uma nação. A Coleção Gelman, agora um símbolo dessa discussão, está no centro de uma questão fundamental para o mundo da arte contemporânea: quem decide onde o patrimônio deve estar e sob quais condições ele pode viajar.