Na preparação para a final da Copa do Mundo Feminina entre Argentina e Espanha, outro tipo de encontro entre os dois países ganha destaque em Buenos Aires. O Museu Nacional de Belas Artes apresenta a exposição "Itinerários Artísticos entre Argentina e Espanha (1880-1930)", uma mostra que traça meio século de intercâmbios culturais e revela como viagens, amizades e influências mútuas moldaram a produção artística de duas costas unidas pela história.
A exposição, com curadoria das pesquisadoras Florencia Galesio, Paola Melgarejo e Patricia Corsani, reúne mais de sessenta pinturas, esculturas, gravuras e documentos históricos do acervo do museu e de outras instituições. O projeto faz parte de uma iniciativa de intercâmbio acadêmico promovida pelo Departamento de Belas Artes da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Granada.

Joaquín Sorolla y Bastida (Espanha, Valência, 1863 - Espanha, Cercedilla, Madrid, 1923), “O Retorno da Pesca”, 1898. Coleção do Museu Nacional de Belas Artes.
Viaje para a Espanha para aprender a pintar.
Longe da rota tradicional que levava os artistas argentinos a Paris ou Roma, muitos criadores do final do século XIX optaram por se aperfeiçoar em cidades como Madri, Granada, Sevilha, Barcelona, Toledo ou Maiorca. Sob a orientação de mestres como Ignacio Zuloaga, Hermenegildo Anglada Camarasa e Eduardo Chicharro, esses viajantes descobriram uma tradição artística singular e transpuseram para suas telas paisagens espanholas, cenas do cotidiano e motivos da época.
Os curadores enfatizam que essas viagens não apenas ampliaram a formação técnica dos pintores argentinos, mas também lhes permitiram reconhecer a Espanha como um centro de aprendizado de enorme prestígio cultural. Ao retornarem à Argentina, artistas como Jorge Bermúdez e Cesáreo Bernaldo de Quirós começaram a retratar o interior argentino com uma perspectiva renovada, combinando a experiência adquirida em Castela, Andaluzia e Catalunha com a busca por sua própria identidade visual.
Buenos Aires, capital da arte espanhola
Um dos aspectos mais reveladores da exposição é a transformação de Buenos Aires em um mercado chave para a arte espanhola entre 1880 e 1930. O crescimento econômico da cidade e a atividade de marchands de arte como o catalão José Artalim impulsionaram um intenso circuito comercial que orientou o gosto da burguesia de Buenos Aires para o naturalismo e a preciosidade.

Alfredo Gramajo Gutiérrez (Tucumán, 1893 – Buenos Aires, 1961), “Fim da Festa”, 1926. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes.
Os famosos “Salões de Arte”, organizados na galeria Witcomb, promoveram o trabalho de artistas como Joaquín Sorolla e Fernando Álvarez de Sotomayor, enquanto o recém-fundado Museu Nacional de Belas Artes incorporou peças espanholas graças a aquisições e legados de colecionadores como Parmenio Piñero e Ángel Roverano.
A exposição também relembra o impacto da seção espanhola da Exposição Internacional de Arte do Centenário. As obras de Zuloaga e Anglada Camarasa conquistaram importantes prêmios e introduziram inovações estilísticas que cativaram a crítica e o público de Buenos Aires. Muitas dessas obras posteriormente passaram a integrar o acervo do museu, consolidando a presença da arte espanhola no cenário artístico local.
Da vanguarda a Sevilha, 1929
A jornada conclui-se na década de 1920, quando artistas argentinos alcançaram considerável reconhecimento na Espanha e novas gerações começaram a dialogar com a vanguarda europeia. Figuras como Antonio Berni e Norah Borges revitalizaram sua linguagem visual por meio do contato com as tendências modernas.
Uma seção especial é dedicada à participação da Argentina na Exposição Ibero-Americana de Sevilha em 1929, onde o pavilhão nacional propôs uma síntese entre a herança europeia e as raízes americanas, refletindo o debate sobre identidade cultural que permeava a sociedade argentina na época.

Jorge Bermúdez (Buenos Aires, 1883 – Granada, 1926) "Gitana Granada" [A Cigana Maria], 1925. Coleção Myrian Gallo Bermúdez, Buenos Aires.
Um diálogo artístico que abrange meio século
A exposição reúne obras de artistas argentinos como Emilio Caraffa, Alfredo Gramajo Gutiérrez, José Antonio Terry, Tito Cittadini, Léonie Matthis e Francisco Bernareggi, além de destacados artistas espanhóis como Julio Romero de Torres, Darío de Regoyos, Mariano Fortuny e Ramón de Zubiaurre.
A exposição “Itinerários Artísticos entre a Argentina e a Espanha (1880-1930)” pode ser visitada até 2 de agosto no primeiro andar do Museu Nacional de Belas Artes. Mais do que uma exposição histórica, a mostra propõe uma viagem pelas conexões culturais que, durante meio século, fizeram da arte uma ponte permanente entre a Argentina e a Espanha.