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Exposicions

Antes do eclipse: arqueologias, memória e fissuras da modernidade na arte mexicana.

Antes do eclipse: arqueologias, memória e fissuras da modernidade na arte mexicana.
bonart mèxic d.f. - 28/06/26

Para celebrar seu 45º aniversário, o Museu Tamayo apresenta Antes do Eclipse: Arqueologias da Arte no México , uma exposição que se afasta deliberadamente da lógica comemorativa para oferecer uma reinterpretação crítica da arte produzida no México entre as décadas de 1980 e 1990. Em vez de reconstruir um período, a exposição o questiona através de suas tensões internas: a crise econômica, a instabilidade política, o impacto do terremoto de 1985 e as transformações culturais que anunciaram a entrada do país em uma fase de globalização acelerada.

O núcleo curatorial reúne mais de sessenta artistas mexicanos e internacionais que viveram e trabalharam na Cidade do México durante esse período crucial. Suas práticas, longe de formarem um estilo homogêneo, constituem um campo de fricção onde coexistem a exploração do território, a reinterpretação do passado pré-hispânico, uma inclinação para o vernáculo e uma crescente preocupação com o ecológico, o espiritual e o sociocultural. Em conjunto, suas obras parecem funcionar como fragmentos arqueológicos de uma época ainda em disputa.

Nesse sentido, a exposição propõe uma metodologia que toma emprestada a noção de “arqueologia” não como uma disciplina fechada, mas como uma metáfora crítica. Escavar as camadas de significado que permeiam essas obras implica reconhecer como a história — longe de ser um pano de fundo estável — se manifesta como uma superfície instável, suscetível a intervenções, reescritas ou mesmo sabotadas pela prática artística.

Entre as peças reunidas, diversas estratégias são empregadas: intervenções no espaço público, narrativas de viagem, assemblages, pintura, escultura, vídeo e imagens manipuladas. Essa variedade de formatos reflete não apenas a diversidade técnica, mas também o desejo de transcender as categorias artísticas tradicionais. Em muitos casos, o gesto prevalece sobre a forma; em outros, a obra funciona como um índice de uma experiência situada, marcada pela transição entre o local e o global, o ancestral e o contemporâneo.

Um dos eixos conceituais mais relevantes da exposição é o seu diálogo com o pensamento de Rufino Tamayo, cuja figura permeia tanto a iconografia do museu quanto a genealogia crítica que a exposição busca ativar. Tamayo defendeu uma tensão produtiva entre o vernáculo e o universal, entre a tradição simbólica mexicana e as linguagens modernas internacionais. Em "Antes do Eclipse", ele revisita essa tensão, mas a desloca para um contexto posterior, no qual a própria ideia de identidade cultural é moldada pelo exílio, pela migração e pela dissolução de narrativas nacionais fechadas.

O período abrangido pela exposição — de 1981 a 1991 — não é arbitrário: começa com a inauguração do próprio Museu Tamayo e termina simbolicamente com a morte do artista e o eclipse solar total. Esse final alegórico reforça a ideia de tempo suspenso, onde a história não avança linearmente, mas se dobra sobre si mesma, gerando zonas de sombra nas quais a arte opera como uma ferramenta de leitura e reescrita.

Nesse contexto, as obras aqui reunidas não buscam ilustrar uma época, mas sim desafiá-la. Algumas delas, apresentadas pela primeira vez no México, adquirem uma nova densidade ao serem reinseridas no presente, enquanto outras reativam debates sobre a relação entre território, memória e poder simbólico. O resultado é uma exposição que não oferece certezas, mas sim um campo de ressonâncias onde a história se comporta como matéria viva e instável, aberta à interpretação.

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