Present Archeologies propõe uma leitura do presente baseada nos mecanismos de acumulação e memória. A exposição, organizada em torno de obras da AT Collection e com curadoria de Antonio Toca, no âmbito do programa The Collector Is Present 2026 , compreende o colecionismo como uma forma de construção crítica do tempo contemporâneo.
Longe de ser organizada por afinidades estilísticas ou geracionais, a exposição funciona como uma montagem de camadas onde cada obra ativa uma tensão específica. Peças de Ai Weiwei, Alfredo Jaar, Regina José Galindo, Eugenio Merino ou Antoine d'Agata coexistem com trabalhos de artistas de diferentes gerações e contextos, configurando um espaço atravessado pela violência política, precariedade afetiva, guerra, repressão ou erosão das estruturas sociais. Não há intenção ilustrativa ou narrativa linear; a exposição é construída a partir do atrito entre imagens, documentos e gestos materiais que operam como resquícios de uma contemporaneidade instável.

Alfredo Jaar, Nenhuma poesia servirá, 2023.
O termo “arqueologias” aqui não se refere a um olhar retrospectivo, mas a uma escavação do imediato. As obras surgem como vestígios de processos ainda em curso, fragmentos que nos permitem ler as formas de violência e decomposição que atravessam o presente. Nesse sentido, a exposição evita tanto o espetáculo da denúncia quanto qualquer dimensão decorativa de engajamento político. Sua posição é mais sóbria: fornecer imagens capazes de sustentar uma investigação ética daquilo que geralmente permanece naturalizado.
A proposta também desloca o papel tradicional do colecionador. Antonio Toca se apresenta como alguém que constrói um dispositivo de leitura. A coleção adquire, assim, uma dimensão discursiva: cada adição modifica o significado do todo e transforma o ato de colecionar em uma prática de articulação cultural e política. Present Archeologies insiste precisamente na possibilidade de compreender a arte contemporânea como um espaço de intervenção crítica, e não como um território autônomo ou autossuficiente.

Abel Azcona, A vergonha, 2024.