Salvador Dalí, como já escrevi em outras ocasiões, antecipou-se na arte das performances, instalações e outras linguagens artísticas que não são estritamente objetuais... Mas também antecipou-se na arte gastronômica, ou arte comestível, e tornou-se um artista que a praticou assiduamente. Salvador Dalí, desde jovem (desde os seis anos, na verdade), queria ser chef de cozinha. Mas isso, em uma família rica, por mais republicana que fosse, teria sido uma desonra — estamos falando de outros tempos, claro. Isso lhe causou um trauma para toda a vida, ainda mais considerando que seu pai o proibiu de entrar na cozinha para sempre, onde depositava suas fantasias sexuais. Dessa forma, a comida, em sua iconografia pictórica, performances e ações — inclusive, na minha opinião, mais do que em sua pintura —, tem uma presença muito relevante.
A última apresentação
Como você provavelmente já sabe, Salvador Dalí encomendou que a Torre Galatea, anexa ao museu do teatro — que seria seu túmulo —, fosse decorada com pães triangulares ou croutons (cerca de 1.500). Aliás, algumas pessoas pensam que são uma criação de Dalí, mas na verdade são feitos tradicionalmente em Salt, Banyoles, no Empordà. Não sei se era informação etnográfica que Dalí possuía ou intuição brilhante. Esse pão, antigamente, era um "pão funerário", pois era oferecido nesses eventos, e muitas pessoas compareciam mesmo sem conhecer o falecido, porque era o melhor pão que conseguiam encontrar — naquela época, as pessoas tinham que comer pão preto.
O pão da vida
De fato, Dalí sempre teve grande apreço pelo pão, que devorava avidamente com ouriços-do-mar, sardinhas, etc. Além disso, transformou-o em um motivo iconográfico em sua obra-prima, a cesta de pão, repetida pelo menos duas vezes. A mais famosa (Teatro Museu Dalí em Figueres) representa uma cesta com um pedaço de pão sobre uma mesa de madeira contra um fundo escuro, pintada em um estilo que mais tarde chamaríamos de hiper-realismo, que posteriormente triunfaria. Segundo o próprio Dalí, ele a terminou em 1º de setembro de 1945, um dia antes do início da Segunda Guerra Mundial. Trabalhou nela quatro horas por dia durante dois meses. Mas o pão também aparece em outras obras de Dalí: por exemplo, na Cesta de Pão (1926), sobre o mesmo tema.