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Exposicions

Cristóbal Ortega e a pintura transitavam entre a matéria, o tempo e as 'almas' em transformação.

Na Galeria Miguel Marcos, 'Almas' explora uma pintura que transborda a tela e dialoga para questionar os limites da percepção.

Cristóbal Ortega, Alma Kawabata, 2025.
Cristóbal Ortega e a pintura transitavam entre a matéria, o tempo e as 'almas' em transformação.
bonart barcelona - 24/03/26
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Cristóbal Ortega apresenta a exposição Almas na Galeria Miguel Marcos, um projeto que pode ser visitado até 30 de abril e que sintetiza claramente uma das linhas mais singulares de sua carreira recente. Longe de ser uma simples reunião de obras, a exposição funciona como uma jornada conceitual e material em torno de uma ideia recorrente em sua prática: a pintura como um corpo atravessado, como um espaço de trânsito.

Ortega trabalha simultaneamente na frente e no verso da tela, forçando a matéria pictórica a atravessá-la. Esse gesto — tanto físico quanto simbólico — dá origem ao que o artista chama de “almas”: presenças que emergem da própria tensão do suporte e que questionam a superfície como limite. Essa linha de trabalho remonta a 2011, durante sua estadia em Songzhuang (Pequim), logo após seu contato com o contexto artístico chinês, na sequência de uma exposição no Instituto Cervantes em 2009. Desde então, sua pesquisa tem se aprofundado nessa ideia de permeabilidade, tanto material quanto perceptiva.

  • Cristóbal Ortega, Alma Schopenhauer, 2025.

A prática pictórica de Ortega aproxima-se de uma concepção quase arquitetônica da obra. Cada peça é construída como um sistema em equilíbrio instável, onde matéria, gesto e tempo atuam como forças estruturantes. No entanto, essa estrutura aparente é constantemente subjugada pelo acaso e pela indeterminação. O artista rejeita qualquer rigidez técnica e abraça o imprevisível, permitindo que a pintura evolua como um organismo vivo.

Um dos aspectos mais marcantes é o comportamento do óleo sobre a tela: sua filtração gera acúmulos, velaturas e transparências que borram a fronteira entre superfície e profundidade. As cores não se limitam a ocupar espaço, mas se entrelaçam num jogo de tensões e harmonias que estimula o olhar do espectador. Nesse diálogo de opostos — controle e acaso, opacidade e transparência, estrutura e dissolução — reside um dos núcleos conceituais de sua obra.

  • Cristóbal Ortega, Sudora Everglades, 2022.

Almas concentra-se precisamente nessa dimensão latente da pintura. As obras expostas permitem que essa “alma” se manifeste com mais clareza, num processo que não é apenas visual, mas também tátil e quase fenomenológico. Nesse sentido, a obra de Ortega estabelece um paralelo sugestivo com Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luis Borges, onde a realidade é construída a partir da percepção e as formas são constantemente redefinidas.

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