O porto é, por definição, um lugar de trânsito. Um espaço onde os materiais chegam, saem, acumulam-se, transformam-se e voltam a circular. Mas esta aparente condição de passagem esconde uma capacidade muito mais profunda: a de alterar o território. As mercadorias necessitam de estradas, depósitos, rampas, condutas e áreas de armazenamento, e cada uma destas infraestruturas deixa uma marca física na paisagem. É precisamente nesta tensão entre circulação e sedimentação que Martin Llavaneras insere Muelle de Castilla , uma investigação escultórica que, de 9 de setembro a 15 de novembro de 2026, ocupa Les Golfes del Mèdol para abordar o porto de Tarragona a partir da sua dimensão material.
Llavaneras parte da atividade portuária, mas também da geografia particular de Tarragona, marcada pelo desnível que separa a cidade, situada em uma área elevada, da orla marítima. Esse desnível torna-se fundamental para a compreensão de uma cidade atravessada por fluxos de materiais e infraestruturas que condicionam sua forma. O artista não observa o porto apenas como uma paisagem industrial, mas como um organismo em movimento, uma grande máquina física na qual cada deslocamento produz consequências e cada material deixa algum tipo de rastro.
Com curadoria de Freya Day e desenvolvida em colaboração com a Cultura Verda, a exposição toma o nome de uma das infraestruturas do porto de Tarragona e traduz para a linguagem escultórica algumas das lógicas que permitem esse movimento incessante. As formas não buscam reproduzir literalmente as estruturas portuárias, mas sim compreender seu funcionamento e convertê-lo em uma gramática escultórica. Relevos e estruturas tubulares estendem-se pelas paredes e pisos, adotando inclinações e trajetórias que evocam rampas de carga, tanques ou sistemas de transporte.

Nesse processo, a matéria deixa de ser um mero elemento físico e se transforma em uma forma de conhecimento. As superfícies das peças incorporam texturas que remetem aos materiais transportados pelo porto e aos sedimentos que compõem o litoral. A escultura surge, assim, como uma espécie de território condensado: um espaço onde as formas, as texturas e as tensões físicas nos permitem intuir processos geralmente ocultos pela atividade industrial.
Mas a pesquisa de Llavaneras não se limita ao que é visível. Ela também investiga uma memória menos óbvia do território: aquela que está aprisionada nos nomes dos lugares. A toponímia funciona como um arquivo subterrâneo, uma cartografia feita de palavras que preserva fragmentos de geografias desaparecidas. Quando a paisagem muda, alguns nomes sobrevivem e continuam a apontar para o que já não existe. São, nesse sentido, uma espécie de fósseis linguísticos: vestígios imateriais capazes de manter ativa a memória de um território anterior.
Essa mesma relação entre informação e matéria aparece nos documentos ligados à atividade portuária. Registros de origens e quantidades, inicialmente concebidos para ordenar e controlar o movimento de mercadorias, são manipulados pelo artista até adquirirem uma nova condição. Dobrados, comprimidos e transformados, os papéis deixam de funcionar como documentos e se tornam volumes, tubos e funis. A informação abandona sua configuração bidimensional e passa a ocupar fisicamente o espaço. É como se os dados tivessem seguido o mesmo processo de transformação dos materiais que descrevem.
Um dos aspectos mais sugestivos de Muelle de Castilla é precisamente essa impossibilidade de compreender as esculturas como formas acabadas. Algumas peças incorporam materiais orgânicos que continuarão a se transformar ao longo da exposição. A cristalização e a degradação modificarão progressivamente as superfícies e introduzirão uma temporalidade própria no todo. A obra, assim, deixa de ser um objeto fixo e se torna um processo.
Essa dimensão temporal reforça uma das ideias centrais do projeto: a matéria nunca é completamente estável. O mesmo se aplica ao território. O porto transforma a cidade ao mesmo tempo que as mercadorias que ali circulam se transformam, acumulam ou desaparecem. As esculturas de Llavaneras compartilham essa mesma condição mutável. Elas sedimentam, erodem, cristalizam e se transformam diante do observador.