O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) apresenta, a partir de 3 de julho de 2026, Casa María Lionza , uma instalação da artista venezuelana Sol Calero concebida especificamente para o Vão Livre, o emblemático espaço aberto do edifício projetado por Lina Bo Bardi. A instalação transforma esse espaço em um ambiente imersivo inspirado na arquitetura vernacular latino-americana e provoca reflexão sobre as múltiplas formas de compreender a identidade, o pertencimento e as tradições culturais do continente.
Nascida em Caracas em 1982, Sol Calero desenvolveu uma prática artística caracterizada pela criação de espaços que se situam na intersecção entre instalação, pintura, escultura e arquitetura. Seus ambientes geralmente se inspiram em referências domésticas e folclóricas latino-americanas, que a artista transforma por meio de cores vibrantes, padrões decorativos pintados à mão, mosaicos e elementos arquitetônicos.

O resultado são composições tridimensionais de grandes dimensões que funcionam simultaneamente como espaços habitáveis e como uma espécie de pintura expandida. Nelas, Calero explora a construção de imaginários em torno da América Latina e também questiona a forma como seus símbolos, paisagens e tradições têm sido representados a partir de perspectivas externas.
Em Casa María Lionza , a artista toma como figura central María Lionza, uma das principais figuras da espiritualidade popular venezuelana. Seu culto reúne elementos indígenas, afro-venezuelanos, católicos e espíritas venezuelanos, dando origem a uma tradição profundamente sincrética que se torna o ponto de partida para a instalação.

O pavilhão oferece uma atmosfera acolhedora inspirada nos espaços domésticos tradicionalmente geridos por mulheres. A casa surge, assim, não apenas como um espaço físico, mas também como um local de transmissão de conhecimento, relações familiares, memória e práticas culturais. Através desta estrutura, Calero explora como as identidades são construídas e preservadas no quotidiano.
A arquitetura é outro aspecto fundamental do projeto. Entre as referências do artista está a obra de Lina Bo Bardi, arquiteta do edifício do MASP, e especificamente seu projeto para a Igreja do Espírito Santo do Cerrado, construída entre 1975 e 1981 em Uberlândia, Brasil. A influência de Bo Bardi permite um diálogo direto entre a instalação contemporânea de Calero e a arquitetura do museu.
Também são essenciais as fotografias de Anna Mariani, tiradas entre as décadas de 1970 e 1990 e focadas nas fachadas de casas no nordeste do Brasil. Suas imagens documentaram uma arquitetura vernacular marcada pela cor, ornamentação e pelas particularidades de cada edifício — elementos que encontram uma nova interpretação no universo visual de Calero.
Por meio da combinação de instalação, pintura, escultura e mosaico, a Casa María Lionza constrói um espaço onde arquitetura e arte se encontram para abordar questões relacionadas ao sincretismo, à espiritualidade e às diferentes formas de narrar a história da América Latina.

O próprio nome do projeto também se conecta a uma característica comum da obra de Calero. Muitos dos títulos de suas peças fazem referência a figuras femininas presentes em canções de salsa, incorporando assim a música popular como mais uma forma de explorar a memória e o imaginário cultural latino-americanos.
No Vão Livre do MASP, a Casa María Lionza assume uma dimensão particularmente significativa. A instalação ocupa um espaço concebido por Bo Bardi como um lugar aberto e público, e estabelece um novo diálogo entre a arquitetura modernista do museu e as formas populares e vernaculares que inspiram Calero.