A fotografia pode explicar muito mais do que aquilo que aparece diante da câmara. Pode também revelar como um território se transforma, que imagem se constrói dele e como essa representação acaba por integrar o seu imaginário coletivo. A arquitetura dos postais. O Arquivo Casa Planas, no Centro Internacional de Fotografia Toni Catany, de 9 de julho a 27 de setembro de 2026, parte precisamente desta dupla condição da fotografia enquanto documento e enquanto objeto de estudo.
A proposta recupera uma seleção de materiais preservados no Arquivo Casa Planas, um conjunto que permite traçar a transformação de Maiorca através de imagens ligadas ao turismo. Os materiais publicitários criados e reunidos pelo fotógrafo Josep Planas i Montanyà (1924-2016) constituem o ponto de partida de uma viagem pela evolução da arquitetura de lazer, desde os primeiros modelos turísticos até à expansão do turismo de massas.
A exposição, portanto, articula fotografia, arquitetura e transformação territorial. Os primeiros estabelecimentos que surgiram no início do século XX apresentavam uma arquitetura eclética e, muitas vezes, doméstica. Ao longo das décadas, esse modelo deu lugar a uma arquitetura especificamente projetada para acomodar o grande fluxo de visitantes. O desenvolvimento do turismo nas décadas de 1960 e 1970 levou à expansão de grandes complexos hoteleiros e dos chamados hotéis-fábrica, que se tornaram uma das expressões mais evidentes do novo modelo econômico.

Hotel Florida, Praia de Magaluf, 1969, Cartão-postal 2914, © Arquivo Casa Planas.
Nesse processo, a fotografia desempenhou um papel fundamental. As imagens não apenas registraram os novos edifícios, paisagens e espaços de lazer, mas também contribuíram para a criação de uma certa imagem de Maiorca. O cartão-postal turístico tornou-se uma ferramenta promocional e, ao mesmo tempo, testemunha de uma profunda transformação social, econômica e arquitetônica.
A exposição integra a IV Conferência sobre Fotografia e Arquitetura, coordenada por Maribel Rosselló e que se realiza nos dias 23 e 24 de julho de 2026 na Fundação Toni Catany / Centro Internacional de Fotografia. A conferência centra-se em dois momentos decisivos para a compreensão da construção da história do turismo nas Ilhas Baleares e, em particular, em Maiorca: as décadas de 1930 e de 1960 e 1970.
Os dois períodos são abordados sob perspectivas diferentes. Para compreender Maiorca na década de 1930, o foco recai sobre duas viajantes, Lady Shepard e Charlotte Perriand, que chegam à ilha partindo de posições experimentais muito distintas e compartilham a busca por um paraíso ainda não transformado pela explosão do turismo de massa. Suas abordagens permitem recuperar uma visão externa de um território que começava a fazer parte do imaginário dos viajantes.

As décadas de 60 e 70, por outro lado, representam o momento da explosão definitiva do turismo. Maiorca e as demais ilhas viram essa atividade consolidar-se gradualmente como um dos principais motores econômicos do território. Hotéis, urbanizações e novos espaços de lazer modificaram a paisagem e deram forma a uma nova realidade turística, também projetada por meio de fotografias e materiais publicitários.
É neste segundo período que o Arquivo Casa Planas assume especial relevância, pois seus materiais permitem abordar as narrativas construídas a partir dos próprios espaços turísticos. As fotografias e peças de comunicação mostram como os novos espaços foram apresentados ao visitante e quais elementos foram selecionados para construir uma imagem atrativa das ilhas.
Arquitetura de cartão-postal. O Arquivo Casa Planas, com curadoria de María Sebastián, propõe, assim, uma leitura da fotografia turística que vai além de sua função promocional. As imagens tornam-se uma ferramenta para a compreensão da história de Maiorca, da transformação de sua paisagem e da construção de um imaginário que ainda hoje condiciona a forma como o território é percebido.