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MyBestys por Cristina Castañer: quando a arte de Yayoi Kusama se torna um objeto do cotidiano

MyBestys por Cristina Castañer: quando a arte de Yayoi Kusama se torna um objeto do cotidiano
bonart - 29/04/26

A moda pode dialogar com a arte de diversas maneiras, mas raramente esse encontro se torna uma extensão tão tangível da experiência museológica como na colaboração entre a Fundação Beyeler em Riehen, perto de Basileia, e a MyBestys, de Cristina Castañer. Como parte da grande retrospectiva dedicada a Yayoi Kusama, a instituição suíça encomendou à designer espanhola a criação de uma coleção exclusiva de bolsas concebidas como uma ponte entre o design contemporâneo, o artesanato e a sustentabilidade.

A proposta posiciona Cristina Castañer como a primeira designer espanhola convidada a desenvolver uma coleção para a Fundação Beyeler, um marco que reforça a dimensão cultural do projeto. Não se trata simplesmente de uma colaboração comercial, mas sim de uma intervenção concebida como um verdadeiro "diálogo entre arte e objeto": uma forma de estender o universo de Kusama para além do espaço expositivo e trazê-lo para o âmbito da vida cotidiana.

Uma homenagem têxtil ao universo de Kusama.

A coleção MyBestys nasceu da retrospectiva que a Fundação Beyeler dedica a Yayoi Kusama, figura fundamental da arte contemporânea japonesa e internacional. Sua obra, marcada pela repetição, pontos, obsessão pelo infinito e criação de espaços imersivos, gerou uma das linguagens visuais mais reconhecíveis dos séculos XX e XXI. A exposição na Beyeler abrange mais de sete décadas de sua produção e reúne obras icônicas ao lado de uma de suas célebres Salas de Espelhos Infinitos, ressaltando a experiência imersiva que define sua prática.

Nesse contexto, a proposta da MyBestys não busca ilustrar a obra de Kusama literalmente, mas sim reinterpretar suas imagens por meio de objetos do cotidiano. A coleção traduz na bolsa — uma peça íntima, funcional e profundamente pessoal — alguns dos eixos conceituais que permeiam o trabalho da artista: repetição, vibração visual, o poder da cor e a capacidade do design de evocar uma experiência emocional.

Nove peças exclusivas, quatro delas expostas na Fundação Beyeler.

A coleção exclusiva é composta por nove modelos, quatro dos quais estão em exposição na própria Fundação Beyeler, reforçando assim o caráter expositivo do projeto. Cada bolsa foi concebida como uma peça única, algo entre um acessório de design e um objeto de arte, com especial atenção à materialidade, à construção e à história dos tecidos.

Além de sua presença no museu, essas criações encapsulam a identidade da MyBestys, uma marca fundada por Cristina Castañer com base em uma visão que une qualidade, funcionalidade e criatividade. Elas incorporam as características que definem a marca: produção artesanal na Espanha, uso de materiais reciclados de alta qualidade, uma estética vibrante e colorida e um estilo que combina frescor com elegância atemporal.

Sustentabilidade e moda circular: uma segunda vida para materiais com história.

Um dos aspectos mais importantes da coleção é a sua dimensão sustentável. Fiel à filosofia da MyBestys, Cristina Castañer optou pela reutilização de materiais e por um método de produção que entende o design como um exercício de continuidade, e não de descarte. Para esta colaboração, a designer deu uma segunda vida a telas únicas ligadas ao projeto, combinando-as com tecidos vintage do universo Castañer.

Dessa intersecção emergem bolsas que se destacam não apenas por sua estética singular, mas também por sua capacidade de ativar uma narrativa circular na moda. Cada peça é confeccionada com materiais que carregam uma história pregressa e que, em vez de serem descartados, são reintroduzidos no presente por meio de uma nova forma, uma nova função e um novo contexto.

Um dos detalhes mais significativos está no interior das bolsas. Segundo a marca, cada peça incorpora forros feitos com materiais de alpargatas Castañer vintage, um gesto que conecta de forma eloquente tradição, memória têxtil e circularidade. O que em outro contexto seria desperdício ou um arquivo inativo torna-se aqui parte essencial do design: uma camada invisível à primeira vista, mas carregada de significado.

A marca MyBestys: artesanato, intimidade e design com uma história.

Esta coleção é particularmente atraente porque incorpora claramente a filosofia da MyBestys. A marca construiu sua identidade na ideia de criar peças com alma, objetos que não apenas servem a uma função prática, mas também estabelecem uma conexão emocional com quem os usa. Não é por acaso que o nome da marca evoca essa ideia de proximidade: 'MyBestys' significa 'meus amigos mais próximos', companheiros de vida com quem compartilhar momentos e experiências.

Essa dimensão emocional coexiste com um forte compromisso com a produção responsável. Na narrativa da marca, a reutilização de tecidos, a utilização de materiais reciclados e o artesanato local fazem parte da mesma visão: a de uma moda que valoriza o tempo, a habilidade e a individualidade em contraposição à lógica da produção acelerada.

Nesse sentido, a colaboração com a Fundação Beyeler amplifica essa identidade e a insere em um contexto cultural de alto valor simbólico. As bolsas de Cristina Castañer não aparecem aqui como meros subprodutos de uma exposição, mas como peças que absorvem a energia conceitual do museu e a traduzem em sua própria linguagem: a do artesanato contemporâneo, da sustentabilidade e das peças de design.

Do museu ao gesto cotidiano

Talvez o aspecto mais interessante desta coleção resida na sua capacidade de transitar entre mundos. Por um lado, situa-se no âmbito da arte contemporânea através do diálogo com Kusama e com uma instituição como a Fundação Beyeler. Por outro, mantém-se ancorada no quotidiano: são malas concebidas para serem usadas, tocadas, habitadas. Esta natureza dual — objeto funcional e objeto com ressonância artística — é o que confere profundidade ao projeto.

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