A cultura catalã vive um momento de contrastes. Por um lado, os dados mostram um setor em expansão, com mais público, uma rede de espaços mais ativa e maior projeção internacional. Por outro, persistem fragilidades estruturais que afetam a sustentabilidade da criação artística, sobretudo no que diz respeito à precariedade do emprego de profissionais da cultura e aos novos desafios decorrentes da transformação tecnológica.
Esta é uma das principais conclusões do Relatório Anual sobre o Estado da Cultura e das Artes 2025, elaborado pelo Conselho Nacional da Cultura e das Artes (CoNCA), que coloca a inteligência artificial no centro do debate cultural atual. Segundo uma pesquisa realizada com profissionais do setor, sete em cada dez consideram que a IA apresenta desafios urgentes em termos de autoria, direitos autorais e preservação da diversidade cultural. O principal receio é que o uso massivo dessas tecnologias possa favorecer uma produção artística mais uniforme, menos diversa e progressivamente distante da dimensão humana que define a criação cultural.
O relatório não rejeita o potencial da inteligência artificial, mas insiste na necessidade de integrá-la a critérios de responsabilidade, transparência e equidade. Entre as suas recomendações, destaca a promoção da formação digital para profissionais da cultura, o acesso igualitário às ferramentas tecnológicas e a criação de marcos de governança que garantam o respeito pelos direitos autorais e pela diversidade das expressões culturais.

Na esfera econômica, a cultura catalã atingirá um investimento público recorde de 1.517 milhões de euros em 2025, o equivalente a 189 euros por habitante, o valor mais alto já registrado. As prefeituras continuam sendo as principais responsáveis pelo financiamento da cultura, contribuindo com 58% do total, seguidas pela Generalitat com 31%, os conselhos provinciais com 10% e os conselhos regionais com uma participação inferior a 1%.
Os indicadores de atividade também confirmam uma recuperação no consumo cultural. A bilheteria teatral cresceu 7,7%, os museus aumentaram o número de visitantes em 9,1% e o setor editorial catalão registrou um aumento de 9,3% no faturamento. Em contrapartida, a exibição cinematográfica apresentou uma queda de 11% no número de espectadores, enquanto as assinaturas de plataformas audiovisuais sob demanda continuam a crescer, com um aumento de 32%, evidenciando a transformação dos hábitos de consumo cultural.
Diante desse cenário, a CoNCA defende uma visão estratégica de longo prazo baseada em três eixos principais: garantir os direitos culturais de todos os cidadãos, fortalecer as estruturas que apoiam o setor e governar a transformação tecnológica de forma democrática.
Entre as medidas propostas, destacam-se a aceleração da futura Lei dos Direitos Culturais, um modelo de financiamento estável baseado no investimento por habitante, o reforço de projetos culturais locais e comunitários, a melhoria das condições de trabalho dos artistas através do Estatuto do Artista, a redução da burocracia e uma maior participação do setor na tomada de decisões.
O relatório também enfatiza a necessidade de integrar plenamente a cultura no sistema educacional, consolidar as Escolas Locais de Arte como espaços de acesso ao longo da vida, fortalecer a presença do catalão em todas as áreas de criação e consumo cultural e garantir uma rede de equipamentos territorialmente equilibrada.
Em suma, o grande desafio proposto pela CoNCA não é apenas adaptar a cultura às novas tecnologias, mas garantir que essa transformação seja realizada sem renunciar àquilo que torna a criação artística única: a diversidade de perspectivas, raízes sociais e a capacidade humana de dar sentido ao mundo.