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Exposicions

Manuel João Vieira e a ilha púrpura de um imaginário sem fronteiras

Manuel João Vieira e a ilha púrpura de um imaginário sem fronteiras
bonart lisboa - 13/06/26

O MAAT, em Lisboa, acolhe até 7 de setembro a exposição "A ilha púrpura: notas e paisagens ", dedicada a Manuel João Vieira (Lisboa, 1962), um dos artistas portugueses mais singulares e multifacetados das últimas décadas. Com curadoria de João Pinharanda, a exposição centra-se na sua obra como pintor, talvez a vertente mais profunda e complexa de uma carreira pública também marcada pelo seu envolvimento na música, na performance e no ativismo político.

Figura de proa da geração de artistas portugueses surgida na década de 1980, Vieira definiu desde o início uma linguagem pictórica muito pessoal. A sua obra, caracterizada pela produção intensa e forte vocação figurativa, constrói-se como um vasto palco narrativo onde personagens, símbolos e referências visuais da tradição greco-romana e de vários séculos da história da arte ocidental coexistem.

Maneirismo, Barroco, Rococó, Romantismo, Simbolismo, Pintura Metafísica e Surrealismo dialogam em suas telas com uma liberdade característica da sensibilidade pós-moderna. Essa capacidade de apropriar-se do passado e transformá-lo a partir de uma perspectiva contemporânea insere Vieira no chamado “retorno à pintura”, uma das correntes fundamentais do cenário artístico internacional de sua geração.

Suas composições, frequentemente em grande formato, remetem a decorações de palácios, afrescos murais ou cenários teatrais. Cada imagem funciona como um palco habitado por criaturas estranhas, arquitetura impossível, paisagens fantásticas e uma iconografia onde o mítico e o cotidiano se misturam em uma representação que oscila entre a sátira, o sonho e o mistério.

A água é um dos elementos recorrentes neste universo visual. Mares, lagos, rios, navios, marinheiros e sereias aparecem como espaços de trânsito e conexão entre as cenas, conferindo às pinturas uma dimensão de jornada física e mental a territórios imaginários.

A obra de Manuel João Vieira oscila entre a ironia e a melancolia. Sua relação com a história da arte não é nostálgica, mas crítica e lúdica: ele dialoga com estilos do passado para revelar novas interpretações a partir do presente. Suas imagens podem ser humorísticas e paródicas, mas também enigmáticas, exigindo do espectador um olhar atento e um amplo conhecimento de associações culturais que abrangem literatura, mitologia, história e a tradição artística europeia.

Essa dimensão teatral permeia também a própria persona do artista. Músico, performer e figura pública, Vieira transforma sua presença em uma extensão de sua obra criativa, partindo do pressuposto de que o mundo é um grande palco a partir do qual questionar discursos estabelecidos e desmantelar suas convenções.

A ilha púrpura: notas e paisagens permite, assim, explorar um território pictórico exuberante e contraditório, onde beleza, provocação e humor se entrelaçam numa obra que desafia qualquer classificação simples e confirma Manuel João Vieira como uma das vozes mais originais da arte portuguesa contemporânea.

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