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Matéria em suspensão, energia em movimento e Damián Ortega

Uma leitura ampliada sobre a grande exposição do Edifício Lina Bo Bardi (MASP).

Matéria em suspensão, energia em movimento e Damián Ortega
bonart são paulo - 05/06/26

A exposição Damián Ortega: Matéria e Energia , em cartaz de 15 de maio a 13 de setembro de 2026 no Edifício Lina Bo Bardi do Museu de Arte de São Paulo (MASP), constitui a primeira grande exposição individual do artista em São Paulo e uma das mais abrangentes retrospectivas de sua carreira na América do Sul. Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, Rodrigo Moura, curador independente do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, e Yudi Rafael, com assistência de Isabela Ferreira Loures, a exposição reúne mais de três décadas da obra de Damián Ortega, consolidando uma ampla interpretação de sua prática.

A obra de Ortega ocupa um espaço onde os objetos do cotidiano deixam de ser meras ferramentas e se transformam em sistemas de pensamento visual. Seu trabalho se baseia em um gesto recorrente: desmontar, reorganizar e reconfigurar elementos comuns — carros, ferramentas, tijolos, pedras ou componentes industriais — para revelar as estruturas ocultas que os sustentam. Nesse processo, o familiar se transforma em um campo de relações, onde cada peça adquire um valor autônomo dentro de uma composição maior que funciona como um diagrama espacial. Essa estratégia, que oscila entre o escultórico e o analítico, permite-nos ler a matéria como algo dinâmico, permeado por forças econômicas, sociais e políticas.

Uma das obras mais emblemáticas associadas à sua carreira é Cosmic Thing (2002), na qual um Volkswagen Beetle é completamente desmontado e suspenso no ar por fios, criando a impressão de uma explosão congelada no tempo. O carro, símbolo do progresso industrial e da mobilidade moderna, aparece fragmentado em todas as suas partes constituintes, forçando o espectador a reconsiderar sua função original. O que antes era um objeto funcional torna-se uma constelação de peças flutuantes que revelam tanto sua engenharia interna quanto as narrativas culturais que o cercam. Essa desmontagem não apenas expõe a estrutura do objeto, mas também suscita reflexões sobre a relação entre tecnologia, produção em massa e memória material.

Ao longo da exposição, são apresentadas cerca de 35 obras criadas entre 1992 e 2026, traçando a evolução de uma linguagem artística baseada na tensão entre ordem e caos. Ortega trabalha com a ideia de que os objetos contêm uma energia latente que pode ser ativada por meio de sua decomposição e rearticulação. Suas instalações suspensas, nas quais ferramentas, blocos de construção ou fragmentos industriais flutuam no espaço, produzem uma experiência visual semelhante a um diagrama ou mapa, onde as relações entre os elementos são tão importantes quanto os próprios elementos. Essa lógica transforma o espaço expositivo em um sistema de interpretação, e não apenas em um recipiente para obras de arte.

Em paralelo, a exposição incorpora um conjunto de obras que dialogam com a arquitetura brasileira e o ambiente urbano de São Paulo, estabelecendo conexões entre a prática da artista e as formas construtivas da paisagem moderna. Nesse contexto, o Edifício Lina Bo Bardi integra-se ativamente à experiência expositiva, uma vez que sua arquitetura aberta e monumental amplifica a sensação de fragmentação e aglomeração presente nas obras. A relação entre espaço e objeto torna-se, assim, um elemento central, reforçando a ideia de que a matéria não pode ser separada do contexto que a produz.

Uma das características mais marcantes da prática de Damián Ortega é sua capacidade de articular uma dimensão crítica sem abandonar a ironia e o humor. A recomposição de objetos cotidianos gera situações inesperadas que desestabilizam a percepção convencional, introduzindo uma perspectiva lúdica que coexiste com uma leitura profundamente política dos sistemas de produção contemporâneos. Essa ambiguidade entre o sério e o lúdico permite que suas obras funcionem simultaneamente como experimentos formais e como comentários sobre a organização do mundo material.

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