Uma das principais fontes de conhecimento sobre a história da arte são as cartas de alguns artistas. Uma lista quase interminável poderia ser mencionada: as cartas de Vincent van Gogh para seu irmão Theo, as cartas de Auguste Rodin para sua esposa Camille Claudel, as de Frida Kahlo para seu marido Diego Rivera, e muitas outras.
Todas essas cartas, além de cumprirem sua função principal, que é a de comunicar, são hoje valorizadas como obras literárias por seu estilo, ou como documentos históricos pelo contexto que narram, ou ainda como escritos que desafiam emocionalmente o leitor pela carga sentimental que acumulam.
Essa reflexão é retomada a partir da exposição de Patricia Esquivias no Centro de Arte Contemporânea La Fabra, aberta ao público de 16 de março a 27 de setembro. A exposição monográfica é baseada em cartas que a artista venezuelana trocou com outros correspondentes, relacionadas às suas obras.
Assim, como é habitual em sua carreira, ele parte de histórias do passado, neste caso de uma perspectiva pessoal, para propor novas abordagens aos discursos atuais. No entanto, essa relação epistolar é apenas o ponto de partida, pois se torna a principal razão para a escolha das obras que compõem toda a exposição.
O percurso da exposição acaba por se tornar uma amostra do seu trabalho, que combina uma grande variedade de linguagens artísticas, do desenho ao vídeo, passando pela fotografia e pela instalação. Além disso, apresenta ao público algumas obras inéditas, bem como outras que, pela primeira vez, partilham espaço e tempo, estabelecendo um diálogo entre si. Em consequência destas novas ligações, as reflexões suscitadas pelo artista também se diversificam.
Para a realização deste projeto, contou-se com a colaboração da Caniche Editorial, sediada no litoral basco, para trabalhar na concepção da exposição. Além disso, como editora independente especializada em projetos artísticos, apresenta também um livro com a compilação completa das cartas que guiam o percurso da exposição. Este facto permite desfrutar da exposição de forma integral, uma vez que é possível conhecer o processo, desde a sua origem até ao resultado final, que é a própria exposição.
Esta não é a primeira vez que a obra de Patricia Esquivias visita a cidade de Barcelona; ela já o fez anos atrás: em 2014, apresentou uma exposição individual neste mesmo Centro de Arte Contemporânea, no bairro de Sant Andreu. Nesse mesmo ano, algumas de suas obras foram exibidas no Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (MACBA). Ambas as exposições já revelavam o desejo de Esquivias de provocar reflexão, e esta exposição na antiga fábrica Fabra i Coats não é exceção.
Embora esta exposição seja anunciada a partir de uma perspectiva mais íntima, ela continua a propor ao espectador uma série de questões que nem sempre precisam de resposta, porque nem todas as perguntas precisam de resposta, nem existe sempre uma única resposta correta. A frase sincera que declara que, para compreender o presente, é necessário conhecer o passado, Patricia Esquivias acaba sempre por confirmar com as suas exposições.