Na manhã de quinta-feira, 27 de agosto, o patrimônio arqueológico europeu sofreu um dos golpes mais graves dos últimos anos. O Museu de Villena (MUVI), em Alicante, foi assaltado e grande parte do Tesouro Histórico de Villena, considerado uma das mais importantes coleções de ourivesaria pré-histórica da Europa, foi roubada. A Guarda Civil e a Polícia Judiciária estão investigando o roubo, enquanto o museu permanece isolado.
O assalto ocorreu nas primeiras horas da manhã e os responsáveis agiram com uma rapidez que indica uma operação meticulosamente planejada. Segundo as primeiras reconstruções, o alarme de um centro esportivo municipal foi acionado às 5h16. Poucos minutos depois, por volta das 5h20, o museu foi invadido. Os assaltantes entraram por uma das laterais do prédio, após quebrarem uma janela, e fugiram antes da chegada da polícia. A investigação aponta para a participação de várias pessoas e diversos veículos.
A possibilidade de o alarme falso ter sido usado como manobra de distração agora faz parte das hipóteses investigadas. O objetivo seria deslocar as forças de segurança para um local distante do museu, ganhando assim alguns minutos para realizar o roubo. A sequência e a precisão do assalto levaram as autoridades a considerar a possibilidade de um grupo especializado em roubo de patrimônio histórico estar por trás do golpe.
A extensão exata do saque ainda está sob investigação, embora o prefeito de Villena, Fulgencio Cerdán, tenha confirmado que os ladrões levaram uma parte muito importante do Tesouro, especialmente as peças de ouro. Três das coroas da Virgem com o Menino, que estavam guardadas no museu, também foram roubadas. Algumas peças foram deixadas para trás, incluindo recipientes de prata e outros elementos do conjunto, enquanto o chamado Tesorillo, composto por 35 peças de ouro da mesma época, permanece intacto.
Dez quilos de memória histórica
Para além do seu valor económico, a magnitude da perda torna-se compreensível ao considerarmos a natureza excecional do conjunto. O Tesouro de Villena é constituído por peças que datam aproximadamente de 1000 a.C. e inclui principalmente objetos de ouro: 11 tigelas, 28 braceletes e três garrafas, bem como três recipientes de prata, peças feitas com combinações de âmbar e ouro, ferro e ouro, e um bracelete de ferro. Em conjunto, os diferentes elementos pesam cerca de dez quilos.
Sua importância, contudo, não reside na quantidade de metal precioso. O Tesouro constitui um testemunho excepcional das sociedades da Idade do Bronze e da sofisticação alcançada por suas técnicas de ourivesaria. A presença de ferro é particularmente significativa, pois corresponde a uma época em que esse material ainda era extraordinariamente escasso e podia ser considerado um metal precioso.
O conjunto foi descoberto em 1963 pelo arqueólogo José María Soler García e seus colaboradores dentro de um contêiner escondido no leito de uma ravina no município de Villena. A descoberta ocorreu durante a extração de agregados e chamou a atenção de Soler depois que uma pulseira apareceu nas mãos de alguns trabalhadores e foi levada a um joalheiro para avaliar seu possível valor. A descoberta permitiu a recuperação de um conjunto que hoje constitui parte essencial da história arqueológica da Península Ibérica.
A relevância do acervo levou à sua declaração como Bem de Interesse Cultural. O Estado reconhece oficialmente a coleção arqueológica desde 2005, e a documentação patrimonial destaca sua excepcionalidade e seu valor histórico e artístico.

Um patrimônio que não pode ser reduzido ao seu preço.
O roubo levanta, mais uma vez, uma questão incômoda para os museus: como proteger objetos cujo valor histórico é impossível de traduzir em um valor econômico. As informações iniciais estimam o valor patrimonial do conjunto em cerca de 1,7 milhão de euros, uma quantia que, em todo caso, não reflete seu verdadeiro significado cultural.
Qualquer destruição eventual das peças para comercializar seu ouro representaria uma perda irreversível. Converter os objetos em simples matéria-prima significaria apagar os vestígios de uma sociedade que viveu há mais de três mil anos: suas técnicas, suas trocas, seus símbolos e sua concepção de poder e riqueza.
É precisamente aí que reside a dimensão mais grave da pilhagem. O Tesouro de Villena não é uma coleção de joias antigas ou um simples acúmulo de ouro. Trata-se de um documento arqueológico excepcional, uma peça fundamental para a compreensão da Idade do Bronze no Mediterrâneo Ocidental e uma das maiores coleções de ourivesaria pré-histórica preservadas na Europa.
O prefeito de Villena expressou publicamente o choque da cidade com o desaparecimento de parte de seu patrimônio. "Estamos absolutamente devastados", declarou entre lágrimas, ressaltando que o Tesouro faz parte da identidade e do orgulho da cidade.
Agora começa uma corrida contra o tempo. A Guarda Civil está analisando imagens de segurança e evidências coletadas no museu, numa tentativa de reconstruir a operação com precisão. A esperança é que as peças possam ser recuperadas antes que entrem em circuitos clandestinos ou sejam destruídas.
Em 1963, o Tesouro de Villena foi salvo de um possível saque graças à intervenção de moradores e especialistas. Mais de seis décadas depois, ele se encontra novamente no centro de um episódio de pilhagem. Desta vez, porém, a ameaça não vem da terra onde permaneceu escondido por séculos, mas daqueles que compreenderam seu valor econômico sem entender — ou sem se importar — que seu verdadeiro valor pertence à história.