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Exposicions

Portugal intimista de Todd Webb

Fotografia de Todd Webb © MUUS Collection.
Portugal intimista de Todd Webb
bonart lisboa - 26/06/26

Há fotógrafos que capturam um momento, e outros que conseguem capturar o próprio tempo. Todd Webb pertence a esta segunda categoria. Considerado um dos grandes representantes da fotografia humanista americana do século XX, o artista americano (Detroit, 1905 – Maine, 2000) chega a Portugal pela primeira vez com uma exposição individual que nos permite descobrir um capítulo praticamente desconhecido da sua carreira: as imagens que captou durante as suas viagens ao país entre 1972 e 1982.

A Fundação Calouste Gulbenkian apresenta Portugal de Todd Webb , uma exposição que reúne todo o arquivo português do fotógrafo, recentemente doado pelo Arquivo Todd Webb à instituição lisboeta. A mostra compreende cerca de sessenta fotografias — algumas fontes citam 61 — que constituem um valioso registo visual de um Portugal em plena transformação, ainda profundamente enraizado nas suas tradições, mas que começa a abrir-se a uma nova realidade após a Revolução dos Cravos.

Com curadoria do renomado historiador e crítico de fotografia Jorge Calado, a exposição não é apenas uma jornada geográfica. Acima de tudo, é uma reflexão sobre a capacidade da fotografia de transformar o cotidiano em patrimônio visual. Webb direciona sua câmera para ruas, mercados, portos, praças, pescadores, arquitetura vernacular e cenas urbanas com uma serenidade que evita o espetáculo e prioriza a observação paciente. Suas imagens são desprovidas de drama artificial; seu poder reside precisamente na naturalidade com que revelam a dignidade da vida diária.

A viagem atravessa cidades e vilas de norte a sul — Lisboa, Nazaré, Coimbra, Braga, Viana do Castelo, Faro e Lagos, entre outras — compondo um retrato de um país que já não existe, mas cuja memória permanece viva na sensibilidade do fotógrafo. Mais do que documentar lugares, Webb capta atmosferas, silêncios e relações humanas.

Um fotógrafo que olhava antes de fotografar

A trajetória de Todd Webb se destaca na história da fotografia americana. Antes de se tornar fotógrafo profissional, trabalhou como lenhador, garimpeiro e marinheiro mercante, experiências que moldaram uma visão profundamente conectada à humanidade. Seu treinamento com o fotógrafo Ansel Adams lhe proporcionou um domínio técnico extraordinário, embora Webb logo tenha se afastado das paisagens épicas características de seu mentor, gravitando em direção à fotografia de rua e ao documentário humanista.

Ele foi contemporâneo e amigo de figuras essenciais como Berenice Abbott, Alfred Stieglitz, Georgia O'Keeffe e Beaumont Newhall. Sua série sobre a Nova York dos anos 1940 é considerada uma das grandes crônicas visuais da cidade, caracterizada por uma composição rigorosa e uma notável capacidade de integrar arquitetura e presença humana.

Contudo, enquanto fotógrafos como Henri Cartier-Bresson buscavam o chamado "momento decisivo", Webb preferia construir imagens com um ritmo mais lento, onde o espectador tem tempo para explorar cada detalhe da cena. Suas fotografias convidam à contemplação, não simplesmente ao olhar.

Portugal como território emocional

As fotografias portuguesas revelam um Todd Webb em plena maturidade. Não há exotismo nem intenção folclórica. O fotógrafo observa Portugal de perto, descobrindo beleza em pequenos gestos do dia a dia e numa arquitetura vernacular que coexiste com a modernidade emergente.

A exposição também inclui dois grupos menores que oferecem um vislumbre da amplitude de sua produção artística. Um deles é uma seleção de suas célebres fotografias em preto e branco de Nova York, um paradigma da fotografia urbana do século XX. O outro é uma série colorida feita em diversos países da África subsaariana, encomendada pelas Nações Unidas após seus movimentos de independência. Nesta série, a cor desempenha um papel incomum em seu trabalho, demonstrando a extraordinária versatilidade do artista.

Uma exposição necessária

A recuperação do arquivo português de Todd Webb é muito mais do que uma exposição retrospectiva. Representa a incorporação definitiva de um património documental excecional no legado fotográfico europeu e oferece uma oportunidade única para redescobrir um artista cuja relevância foi injustamente ofuscada durante décadas por outros nomes da fotografia norte-americana.

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