A névoa geralmente não tem destaque na arte contemporânea. No entanto, há mais de cinco décadas, a artista japonesa Fujiko Nakaya demonstra que esse fenômeno atmosférico pode se tornar uma poderosa linguagem criativa. Neste verão, Paris recebe uma nova mostra de seu talento com Cloud #07156 , uma instalação imersiva que transforma a histórica Bourse de Commerce em um cenário onírico.
Aos 93 anos, Nakaya (Sapporo, 1933) continua a expandir os limites da criação artística por meio de uma prática singular que combina tecnologia, observação da natureza e sensibilidade poética. Considerada uma das pioneiras da arte ambiental, ela alcançou reconhecimento internacional em 1970, quando apresentou sua primeira escultura de névoa na Exposição Mundial de Osaka. Desde então, suas instalações envolveram museus, jardins, praças e edifícios icônicos ao redor do mundo.
A nova instalação parisiense ocupa a grande Rotunda localizada sob a cúpula de vidro da Bolsa de Comércio, onde se encontra a coleção de arte de François Pinault. Quatro longas linhas de bicos instaladas no chão liberam uma fina névoa de água que sobe, se expande e desaparece continuamente. O resultado é uma nuvem em constante movimento que altera a percepção do espaço e transforma a arquitetura em uma experiência sensorial.
A obra também estabelece um diálogo entre arte e ciência, um tema constante na carreira da artista japonesa. Filha do físico Ukichiro Nakaya, famoso por desenvolver a primeira neve artificial e por suas pesquisas sobre cristais de gelo, Fujiko herdou um profundo fascínio por fenômenos atmosféricos. Suas esculturas não são objetos estáticos, mas processos vivos que dependem de fatores como temperatura, umidade, circulação do ar e a presença do público.
“Estamos numa paisagem, num sonho”, disse Emma Lavigne, diretora e curadora-geral da Coleção Pinault, durante a apresentação da obra. A descrição resume perfeitamente a experiência que Nakaya propõe: um ambiente em constante transformação onde as fronteiras entre o visível e o invisível se confundem.
A artista sempre defendeu a névoa como um material capaz de revelar o que normalmente permanece oculto. Longe de obscurecer a realidade, suas nuvens a tornam mais perceptível, convidando o espectador a tomar consciência do espaço, da luz e do movimento. Cada instalação é única, pois a forma da nuvem muda constantemente, tornando o tempo parte fundamental da obra.