A vitrine do Museu Abelló não é apenas uma janela para o exterior, mas um espaço que convida à pausa, à reflexão e ao diálogo com as obras expostas. Este pequeno recanto da arte funciona como um contraponto intimista na cidade, evocando o espírito do Espai 13 da Fundação Miró: um lugar onde a arte não é apenas contemplada, mas exige atenção e interação, situado entre a entrada do museu e a casa do pintor Joan Abelló. Para onde quer que nos direcionemos, o nosso olhar inevitavelmente detém diante da vitrine.
Nesta ocasião, a proposta em exibição é Això que no m'ensyes , com curadoria de Mercè Vila Rigat, cuja terceira parte do ciclo se concentra em Natusfera Improbabilitas , e que pode ser visitada até 6 de julho. O projeto, desenvolvido pelo artista e mergulhador Jonàs Forchini, oferece um olhar aprofundado sobre a área portuária industrial de Fos-sur-Mer, um dos portos autônomos de Marselha e uma das regiões mais poluídas do sul da Europa. A combinação de refinarias e complexos metalúrgicos alterou a paisagem, gerando águas turvas que parecem sufocar a vida.

Por meio de uma sucessão de fotografias, Forchini nos imerge gradualmente nesses ambientes subaquáticos degradados. Seu olhar captura a tensão entre destruição e resistência: a água é suja, escura, mas a vida persiste, frágil e preciosa, como se sobrevivesse apenas em troca de um carinho. Esse contraste entre a brutalidade ambiental e a delicadeza da vida torna-se o eixo narrativo da exposição, que convida o espectador a uma experiência sensorial e reflexiva simultaneamente.
Forchini escolhe cuidadosamente essas paisagens submersas, alteradas pela ação humana, onde a visibilidade é escassa e a turbidez domina a cena. Aqui, a fotografia torna-se um instrumento de exploração e, ao mesmo tempo, um poderoso meio artístico: a técnica domina sem ofuscar a força conceitual das imagens, que transmitem uma leitura filosófica, crua e íntima dos espaços menos visíveis e, muitas vezes, ignorados. Em Natusfera Improbabilitas , o conceito do sublime não reside na beleza tradicional, mas na ambivalência, na tensão e na realidade da degradação. O olhar de Forchini nos força a confrontar o que preferimos não ver, lembrando-nos da fragilidade da vida e da complexidade da nossa relação com o mundo natural e industrial.