O Parlamento da Catalunha deu um passo que muitos agentes culturais consideram histórico. O PSC, o Junts e a ERC apresentaram conjuntamente um projeto de lei para promover o mecenato, com o objetivo de incentivar a participação voluntária dos cidadãos no financiamento de atividades de interesse geral. A iniciativa visa fortalecer áreas como cultura, pesquisa, saúde, ação social e esporte, promovendo um modelo mais enraizado no território e com envolvimento direto da sociedade civil.
A proposta legislativa surge após uma década de debate na Catalunha sobre a necessidade de um quadro próprio para o mecenato. Durante esses anos, outras comunidades autônomas, como La Rioja, Castilla-La Mancha, Comunidade Valenciana, Ilhas Baleares, Navarra e País Basco, desenvolveram regulamentações específicas sobre o assunto. Agora, a Catalunha quer completar esse percurso com uma lei própria que lhe permita desenvolver poderes autônomos, especialmente no que diz respeito à seção catalã do IRPF (Imposto sobre a Propriedade Intelectual da Catalunha).
Uma das medidas mais importantes é a incorporação de benefícios fiscais para doações a entidades e fundações. O texto propõe uma dedução regional adicional de 15% para os primeiros 250 euros doados e de 45% para o restante. No caso de universidades e instituições de pesquisa, as percentagens aumentariam para 20% e 30%, respectivamente.
Conforme explicou Maite Esteve, diretora da Fundação Catalunya Cultura, a soma dos incentivos estaduais e regionais poderia representar um retorno fiscal quase total para pequenas contribuições. "Quando um catalão faz uma doação a uma entidade, pode obter um retorno de 95%, e em universidades e pesquisa, 100%", afirmou durante a apresentação da proposta ao Parlamento.
Esteve argumentou que esses incentivos são especialmente relevantes para a microfilantropia, uma fórmula que ele considera essencial para garantir recursos estáveis a muitas entidades culturais e sociais. "Pequenas contribuições podem ter um grande impacto coletivo", observou, insistindo que o mecenato deve deixar de ser percebido como uma prática ligada a interesses obscuros.
“Precisamos reverter a visão que, com muita frequência, associa o clientelismo a interesses obscuros”, alertou ela. Para a diretora da fundação, o futuro do setor passa pelo fortalecimento da transparência, da responsabilidade e da confiança pública. “Quando o clientelismo funciona bem, todos ganhamos, mas, acima de tudo, o país ganha”, concluiu.
A proposta inclui ainda a criação do Conselho para a Promoção do Mecenato, um órgão consultivo do Governo que deverá assessorar em matéria de políticas públicas relacionadas com esta área. A Fundação Catalunya Cultura considera este órgão uma peça fundamental para consolidar um modelo estável e transversal.
Apesar do amplo apoio parlamentar que a iniciativa recebeu, Esteve alertou que o processo legislativo está entrando em uma fase “muito delicada”. O diretor apelou para a responsabilidade dos grupos políticos em manter o consenso alcançado até o momento e trabalhar para concluir a aprovação da lei.
“Este projeto só fará sentido se for concretizado e se tornar verdadeiramente uma ferramenta ao serviço da sociedade”, afirmou. De acordo com as previsões da Fundació Catalunya Cultura, o texto poderá ser definitivamente aprovado entre o final de 2026 e o início de 2027, desde que as negociações parlamentares avancem favoravelmente.
Para Esteve, a iniciativa vai além da esfera fiscal. “Não se trata apenas de abrir o mecenato a todos, mas também de resgatar o papel da Catalunha no setor cultural”, afirmou. E resumiu o espírito da proposta com uma ideia clara: “Um país não é apenas o que é, mas o que decide fazer com tudo o que tem. E hoje temos a oportunidade de colocar o mecenato no centro.”