Numa época marcada pela saturação de imagens, pela constante mediação das telas e por algoritmos que condicionam grande parte da nossa percepção da realidade, a exposição Multiple Eyes propõe resgatar o olhar como um ato aberto, coletivo e transformador. A mostra, que reúne obras de Patricia Domínguez, Ines Doujak e Lubaina Himid no MAC/CCB em Lisboa até 25 de outubro, apresenta uma reflexão crítica sobre as formas como construímos conhecimento, memória e identidade.
Com curadoria de Nuria Enguita e Rafael Barber Cortell, a exposição reúne três artistas de diferentes gerações que compartilham uma concepção de arte como um espaço de encontro e resistência contra narrativas singulares. Suas práticas se baseiam na narrativa não como uma estrutura fechada, mas como um território em constante transformação onde diferentes vozes, saberes e formas de interpretar o presente coexistem.
Multiple Eyes defende uma perspectiva multifacetada em oposição à lógica das narrativas binárias e hierárquicas. As obras em exibição transitam entre o sensorial, o simbólico, o ancestral e o espiritual, incorporando também elementos da cultura popular, do carnaval, da magia e do abjeto. Uma coleção de linguagens aparentemente díspares encontra um terreno comum na exposição, desafiando categorias estabelecidas e abrindo novos caminhos para a compreensão.

A artista chilena Patricia Domínguez desenvolve pesquisas sobre as relações entre natureza, tecnologia e espiritualidade. Suas obras exploram as conexões invisíveis entre organismos humanos e não humanos, recuperando conhecimentos ancestrais que foram suplantados por modelos dominantes do pensamento científico e econômico. Seu trabalho propõe maneiras alternativas de compreender nossa relação com o planeta, afastando-se de uma visão extrativista e focando na interdependência.
Por sua vez, Ines Doujak constrói uma prática profundamente política que entrelaça história, colonialismo, gênero e poder. Através de imagens carregadas de ironia, excesso e elementos grotescos, a artista questiona as estruturas que definiram quem pode ser representado e quem é relegado ao silêncio. Seu trabalho utiliza a provocação e a imaginação como ferramentas para desmantelar narrativas oficiais e recuperar memórias ocultas.
Lubaina Himid, figura fundamental da arte britânica contemporânea, incorpora em sua obra questões de identidade, diáspora, racismo e representação cultural. Sua produção, caracterizada pelo uso da cor e da tradição pictórica, examina criticamente narrativas históricas, trazendo à tona vozes silenciadas por séculos.

O diálogo entre os três artistas gera uma constelação de perspectivas onde a diferença deixa de ser vista como uma ameaça e se torna uma fonte de conhecimento. A exposição propõe abandonar a ideia de uma única interpretação possível e abraçar a noção de que o mundo é construído a partir de múltiplas experiências, memórias e formas de imaginar.
Diante de sistemas de comunicação cada vez mais condicionados por mecanismos de controle e seleção automática, o projeto Multiple Eyes defende a narrativa como uma prática íntima e coletiva. Contar histórias torna-se, assim, um ato político: uma forma de criar conexões, gerar empatia e reconhecer outras maneiras de ser e pensar.