Vic abriga um projeto singular que entrelaça arte contemporânea, espiritualidade e convivência urbana, baseado no diálogo e na escuta mútua. "Instrumentos da Alma" nasceu de um processo de encontro com diversas confissões religiosas presentes na cidade, com o desejo de nos aproximarmos de seus protagonistas, rituais, símbolos e formas de compreender o transcendente em relação ao cotidiano. Este primeiro trabalho de campo permitiu-nos identificar pontos de contato entre diversas comunidades, sem diluir suas diferenças ou singularidades.
O projeto avança ao incorporar artistas contemporâneos a esse diálogo inicial. Por meio de conversas, encontros e processos de trabalho compartilhados, artistas e comunidades cocriaram novos "instrumentos da alma": peças e dispositivos simbólicos que interpretam, traduzem e questionam as formas atuais de vivenciar a espiritualidade, relacionando tradição e contemporaneidade.

O núcleo do projeto é a exposição que será apresentada no Museu de l'Art de la Pell (MAP) de 23 de janeiro a 26 de abril. A exposição serve como espinha dorsal da iniciativa e, ao mesmo tempo, como ponto de partida para um programa mais amplo que se estende por toda a cidade. Essa abertura a espaços culturais, entidades e coletivos criativos responde ao desejo de integrar naturalmente as comunidades participantes e as atividades daí derivadas à vida cultural de Vic.
A exposição reúne cinco obras de arte contemporânea criadas especificamente para a ocasião, fruto do diálogo entre o MEV, os artistas Valentina Alvarado Matos, Fito Conesa, Laia Solé, Mariona Moncunill e Pep Vidal, e diversas comunidades religiosas de Vic. O projeto, com curadoria de Glòria Picazo, concebe a arte contemporânea como um espaço de mediação, encontro e reflexão compartilhada.
As propostas artísticas, fruto de processos de escuta ativa e trabalho colaborativo, exploram elementos comuns a múltiplas tradições espirituais, como som, luz, rituais, livros sagrados e espaços de culto. Através desses elementos, as obras refletem sobre o significado contemporâneo dos "instrumentos da alma" e suscitam questionamentos sobre a diversidade religiosa, a coexistência e a pluralidade cultural que moldam a Vic atual. Diversas tradições espirituais da cidade participam deste projeto, como o islamismo, a Igreja Católica, a Igreja Adventista do Sétimo Dia, a Igreja Bethel, o sikhismo, além de praticantes de xamanismo, animismo e budismo.

Para além da exposição, Instrumentos da Alma se desdobra como uma proposta com forte dimensão social, de pesquisa e experimentação, onde o processo é tão relevante quanto o resultado final. É no caminho compartilhado — na escuta, no diálogo e na cocriação — que se constroem os laços, as perguntas e os aprendizados que dão sentido ao projeto.
Essa jornada é registrada no documentário associado, produzido pela La Kaseta, produtora especializada em documentários sociais, em coprodução com a CaixaForum+, plataforma audiovisual da Fundação La Caixa, principal parceira. O filme retrata o processo desde os primeiros contatos com as confissões religiosas de Vic até a materialização das obras, enfatizando as relações humanas que se estabelecem entre artistas, curadores e comunidades. O documentário torna-se, assim, um testemunho vivo de um projeto que conecta espiritualidades ancestrais com formas contemporâneas de vivenciar o espiritual, colocando o diálogo e a cidade no centro da reflexão cultural.